{"id":150,"date":"2013-06-07T18:57:29","date_gmt":"2013-06-07T21:57:29","guid":{"rendered":"http:\/\/daslutas.wordpress.com\/?p=150"},"modified":"2013-06-07T18:57:29","modified_gmt":"2013-06-07T21:57:29","slug":"pensando-o-ocupa-rio-encontros-encantamentos-rupturas-e-abandono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/?p=150","title":{"rendered":"Pensando o Ocupa Rio: encontros, encantamentos, rupturas e abandono"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right\">Artigo escrito por Mariana Corr\u00eaa dos Santos para o livro &#8220;Paz na Pista&#8221;, de Paz Berti<\/p>\n<p style=\"text-align:center\"><a href=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/06\/291819_281380791884739_1544935112_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-153\" alt=\"291819_281380791884739_1544935112_n\" src=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/06\/291819_281380791884739_1544935112_n.jpg?w=300\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/06\/291819_281380791884739_1544935112_n.jpg 960w, https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/06\/291819_281380791884739_1544935112_n-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cada vez mais acredito que o que foi vivenciado durante os dois meses de Ocupa Rio levar\u00e1 muito tempo para se repetir. E para se compreender. Muitas an\u00e1lises dos movimentos Occupy j\u00e1 foram publicadas, mas vejo que ainda estamos no olho do furac\u00e3o, muito respaldados por pol\u00edticas sociais e econ\u00f4micas protecionistas que mascaram a crise econ\u00f4mica que assola a Europa e os Estados Unidos, onde os movimentos de ocupa\u00e7\u00e3o tiveram participa\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de desempregados e afetados economicamente.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o foi a realidade no Rio de Janeiro. Recebemos atrav\u00e9s de redes sociais um chamado para manifesta\u00e7\u00e3o a favor da Democracia Real, a se realizar no dia 15 de outubro de 2011, apelidado de 15.O. Aproximadamente 200 pessoas se encontraram em frente \u00e0 C\u00e2mara dos Vereadores do Rio de Janeiro, na Pra\u00e7a da Cinel\u00e2ndia, com cartazes e vozes. Num primeiro momento partidos pol\u00edticos tentaram capitalizar a manifesta\u00e7\u00e3o, com bandeiras e palavras de ordem que, por decis\u00e3o quase espont\u00e2nea da maioria, foram baixadas ou removidas. A manifesta\u00e7\u00e3o era apartid\u00e1ria, por uma democracia real e cr\u00edtica \u00e0 democracia representativa.<\/p>\n<p>A chuva n\u00e3o poupou os cartazes espalhados pelo ch\u00e3o, eram tantos, tantas express\u00f5es de descontentamento, de lutas locais, globais, particulares e coletivas. Era um <i>melting pot<\/i> de desejos de mudan\u00e7a. Da Cinel\u00e2ndia, fomos todos para o Pal\u00e1cio Capanema, e l\u00e1 nos dividimos em Grupos de Trabalho (GTs). Cada grupo tinha sua roda de interessados sentados no ch\u00e3o, dividindo conhecimentos pr\u00e9vios e desejo de aprender algo novo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que nesse primeiro momento, a maioria dos manifestantes aparentava ser de classe m\u00e9dia baixa a alta, brancos e com n\u00edvel de escolaridade alto. As exce\u00e7\u00f5es vinham, por exemplo, com o grupo Reciclato, advindo de ocupa\u00e7\u00f5es urbanas pr\u00f3ximas, militantes de movimentos sociais urbanos e rurais, e alguns moradores de rua que queriam falar sobre o governo, sobre suas ang\u00fastias pessoais, sobre o que sentiam vontade de dizer e quase nunca tinham espa\u00e7o e voz para isso. M\u00e1scaras de Guy Fawkes surgiram, e cobriram os rostos de diversos manifestantes, uma alus\u00e3o certeira aos movimentos Occupy mundiais, como Occupy Wall Street, Boston, Madrid, Londres, entre tantos outros. Com os Grupos de Trabalho definidos<a title=\"\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>, a ocupa\u00e7\u00e3o f\u00edsica da pra\u00e7a foi adiada para o dia 22 de outubro de 2011. Durante essa semana que se apresentava, grupos online foram criados (email e redes sociais), propostas debatidas, estruturas planejadas. Era preciso pensar o que significava fazer parte desse todo que desejava mais, de forma barulhenta e veemente.<\/p>\n<p>Era uma manh\u00e3 nublada, mas nada impediu a chegada de mais 500 pessoas, num total de circula\u00e7\u00e3o de mais de 2.000. Debates sobre a ocupa\u00e7\u00e3o e sobre os formatos decis\u00f3rios tomaram um bom tempo, e ao final uma certeza se tinha: n\u00e3o haviam representantes do Ocupa Rio, nada seria decidido a n\u00e3o ser atrav\u00e9s do consenso e em assembleias, que deveriam ser di\u00e1rias. Essa massa que se formava, amorfa e heterog\u00eanea, precisaria aprender a pensar em un\u00edssono ou pelo menos a se comunicar para aprender a transformar o dissenso em consenso. Por mais que essa forma de pensar viesse a ser no futuro o grande estrangulamento da ocupa\u00e7\u00e3o em si, que n\u00e3o conseguia fugir da f\u00f3rmula inicial e mutar, como o acampamento mutou, ela funcionou como espa\u00e7o para surgir os desejos, os conflitos, as conflu\u00eancias.<\/p>\n<p>Com a frase mote \u201c<i>A casa caiu! Levante sua barraca!<\/i>\u201d, os ocupantes armaram sua acampada, pr\u00f3ximo \u00e0 sa\u00edda do Metr\u00f4 da Cinel\u00e2ndia, em frente ao Cine Odeon. Poesia, m\u00fasica, fotografia, teatro, cinema, oficina de cartazes, v\u00eddeo, <i>livestreaming<\/i>, r\u00e1dio, a pra\u00e7a foi tomada por diferentes pr\u00e1ticas sociais e culturais, criando um contexto pol\u00edtico claro de vontade de mudan\u00e7a. Mas mudar o que? As pautas eram diversas, e dificilmente se chegaria a um consenso sobre o que era exatamente o Ocupa Rio, e naquele momento isso era exatamente o que o tornava t\u00e3o interessante. Essa fluidez de pensamentos, a\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas pol\u00edticas fez com que a rela\u00e7\u00e3o di\u00e1ria fosse t\u00e3o rica e produtiva.<\/p>\n<p>J\u00e1 nesse primeiro momento, o aparato de \u201cseguran\u00e7a\u201d estatal foi acionado, com guardas municipais e policiais militares solicitando falar com o \u201cl\u00edder ou representante\u201d do grupo de ocupantes. \u201cN\u00e3o existem representantes\u201d era respondido, causando estranhamento e confus\u00e3o. Munidos de <i>smartphones<\/i>, fotografavam os rostos dos manifestantes, que fotografavam de volta, numa forma de deixar claro que tudo seria registrado, toda a\u00e7\u00e3o seria interpretada como um ato pol\u00edtico de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Em poucos dias chegamos a 150 barracas, e a \u201ccara\u201d da Ocupa Rio se modificava a cada nova chegada. As articula\u00e7\u00f5es para que a acampada funcionasse foram diversas. As assembl\u00e9ias passaram a ser quartas e s\u00e1bados, e os Grupos de Trabalho passaram a ter certa autonomia das assembl\u00e9ias. A comida (vegetariana por algumas semanas) era feita numa ocupa\u00e7\u00e3o urbana pr\u00f3xima que possu\u00eda uma cozinha industrial. Os mantimentos vinham de doa\u00e7\u00f5es e da x\u00eapa de feiras pr\u00f3ximas. A luz vinha de um \u201cgato\u201d na luz da pra\u00e7a, que mudava de lugar da mesma forma que mud\u00e1vamos as barracas de lugar. Com ela funcionava o <i>streaming<\/i> das assembleias, a r\u00e1dio Ocupa, a ilumina\u00e7\u00e3o da \u201ccozinha\u201d improvisada. As barracas eram individuais ou coletivas, onde os amores tamb\u00e9m podiam ser individuais ou coletivos, onde eram passadas horas de conex\u00f5es das mais variadas, f\u00edsicas e metaf\u00edsicas. Ocupar era e \u00e9 um ato pol\u00edtico, da forma que for.<\/p>\n<p>As atividades dos Grupos de Trabalhos transformavam a pra\u00e7a em espa\u00e7o criativo de todas as formas, fosse com as interven\u00e7\u00f5es de Terrorismo Queer, com as grandes rodas do GT de Comunica\u00e7\u00e3o ou as longas horas de debate do GT Teoria. Mesmo quando a pra\u00e7a era ocupada por outras \u201ctribos\u201d, era poss\u00edvel transitar e ganhar o espa\u00e7o no grito, como ocorreu no \u201cDia Contra a Injusti\u00e7a e em Defesa do Rio\u201d, onde o governador e prefeito fretaram \u00f4nibus e pagaram lanches a quem fosse protestar a favor dos royalties do petr\u00f3leo ficarem no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>As cores foram mudando, pintando a Cinel\u00e2ndia e seus ocupantes novos e antigos, ressignificando a rua, a pra\u00e7a, a circula\u00e7\u00e3o de pessoas, informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos. Barracas fixas foram instaladas para a produ\u00e7\u00e3o de GTs espec\u00edficos, como o de Comunica\u00e7\u00e3o, com seu centro de m\u00eddia improvisado, biblioteca e escambo de livros e roupas. Essa movimenta\u00e7\u00e3o traz de volta uma popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua que havia se afastado com a ocupa\u00e7\u00e3o, em posi\u00e7\u00e3o de estranhamento. Um grupo que n\u00e3o precisa de \u201catestado de pertencimento\u201d, que simplesmente chega e se torna parte do que j\u00e1 est\u00e1 ou \u00e9. Dan\u00e7a, pol\u00edtica, comunica\u00e7\u00e3o e m\u00fasica. As quest\u00f5es perpassam umas as outras e transpiram para a popula\u00e7\u00e3o passante que, curiosa, tenta entender o que tanto falam naquelas rodas, ou porque aquele rapaz est\u00e1 nu com uma gaiola na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A pra\u00e7a se tornou um microcosmo da cidade do Rio de Janeiro, de suas contradi\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 uma metr\u00f3pole capitalista moderna, onde a beleza e a mis\u00e9ria transitam lado a lado. Nesse processo, muitos desistiram de encarar a realidade pol\u00edtica ali apresentada, com discursos se modificando, mochilas e barracas desarmadas, incapacidade de compreender aqueles que eram os \u201cocupantes primordiais\u201d dos bancos, papel\u00f5es, das improvisa\u00e7\u00f5es e jogo de cintura de \u201cocupar a rua, ocupar a pra\u00e7a, ocupar o mundo\u201d.<\/p>\n<p>Aquela maioria de manifestantes que aparentava ser de classe m\u00e9dia baixa a alta, brancos e com n\u00edvel de escolaridade alto foi dando espa\u00e7o para a realidade das popula\u00e7\u00f5es que residem nas ruas. A cozinha foi se modificando, carnes e peixes que surgiam de doa\u00e7\u00f5es, de \u201cdesenroles\u201d. J\u00e1 n\u00e3o mais era na ocupa\u00e7\u00e3o vizinha, mas no meio da acampada, com um fog\u00e3o emprestado e um botij\u00e3o de g\u00e1s \u201carrumado\u201d. Mesclaram-se aqueles jovens militantes, artistas, m\u00fasicos, internautas, e essa popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua sem sobrenome e algumas vezes sem nome, transformando a experi\u00eancia da acampada no mais fiel retrato das dificuldades na cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da democracia na sociedade capitalista. Retrato da fome, do n\u00e3o-possuir, do que choca, do dissenso que n\u00e3o pode e n\u00e3o deve virar consenso. Porque a sociedade capitalista n\u00e3o \u00e9 bonita, n\u00e3o \u00e9 maquiada, \u00e9 violenta, rude e nos torna impotentes. Mas ali, na pra\u00e7a, os que se representam e os que nunca foram representados encontraram voz. Algumas falaram mais alto que outras, em alguns momentos mais embriagadas, mais cracudas, mais emocionadas. Mas todas puderam ser ouvidas, at\u00e9 as que pediam ajuda para \u201c<i>remover os moradores de ruas, chamando a pol\u00edcia para nos proteger<\/i>\u201d. As contradi\u00e7\u00f5es podiam, tudo podia.<\/p>\n<p>E com essa configura\u00e7\u00e3o, aos 42 dias de ocupa\u00e7\u00e3o, a tropa de choque da Pol\u00edcia Militar, a Guarda Municipal do Rio de Janeiro e os Agentes da Secretaria Municipal de Assist\u00eancia Social chegaram e rodearam uma ocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 enfraquecida, ou diminu\u00edda, com o choque de realidade, onde somente poucos sobreviveram ao n\u00e3o-encantamento da viol\u00eancia efetiva da mis\u00e9ria do \u201cestar na rua\u201d. Nesse dia, foram removidas barracas, pessoas e sonhos. Foram jogados no lixo os livros da biblioteca, e encaminhados para abrigos aqueles que eram considerados \u201cinadequados\u201d ao espa\u00e7o p\u00fablico do centro da cidade do Rio de Janeiro, mostrando de forma gritante a pol\u00edtica \u201chigienista\u201d da atual gest\u00e3o da prefeitura e do estado, que deseja \u201climpar\u201d a cidade da popula\u00e7\u00e3o moradora de rua, pobre, usu\u00e1ria de drogas e \u00e1lcool.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que a falta de um objetivo claro foi o que enfraqueceu a ocupa\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7o uma an\u00e1lise mais pessoal: o que enfraqueceu a ocupa\u00e7\u00e3o foi a expectativa. Muito se esperava do que seria a Ocupa Rio, esse espa\u00e7o p\u00fablico tomado na marra, e transformado numa pequena cidade dos sonhos. Ali se debatia pol\u00edtica, se falava de educa\u00e7\u00e3o e de democracia, se criticava o capitalismo e todas as suas desigualdades. Desenvolveram-se afetos, converg\u00eancias, amores. Esperavam uma Pra\u00e7a Tahir. Entretanto, quando o conflito real se apresentou das mais diversas formas poss\u00edveis, como mis\u00e9ria, como choque, como confus\u00e3o, apenas um pequeno grupo de forma\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas se mostrou disposto a transitar por todas essas formas e compreend\u00ea-las como identidades pol\u00edticas que transbordavam e se derramavam pela pra\u00e7a. Encontraram a Cinel\u00e2ndia.<\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Os grupos de trabalho foram diversos num primeiro momento: Comunica\u00e7\u00e3o, Infraestrutura, Teoria, Atividades, Educa\u00e7\u00e3o, Processo, Alimenta\u00e7\u00e3o, Queer, Reciclagem, A\u00e7\u00e3o Direta, Arte e Cultura, Seguran\u00e7a, entre outros.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo escrito por Mariana Corr\u00eaa dos Santos para o livro &#8220;Paz na Pista&#8221;, de Paz Berti Cada vez mais acredito que o que foi vivenciado durante os dois meses de Ocupa Rio levar\u00e1 muito tempo para se repetir. E para se compreender. 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