{"id":203,"date":"2013-06-18T18:18:08","date_gmt":"2013-06-18T21:18:08","guid":{"rendered":"http:\/\/daslutas.wordpress.com\/?p=203"},"modified":"2013-06-18T18:18:08","modified_gmt":"2013-06-18T21:18:08","slug":"o-levante-da-alerj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/?p=203","title":{"rendered":"O Levante da ALERJ"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center\"><a href=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/06\/alerj.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-204\" alt=\"Alerj\" src=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/06\/alerj.jpg?w=300\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/06\/alerj.jpg 1000w, https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/06\/alerj-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por Fernando Monteiro<\/p>\n<p>As pessoas que estiveram na Alerj n\u00e3o s\u00e3o v\u00e2ndalos. Eu estive na porta da Alerj e n\u00e3o sou v\u00e2ndalo. A tentativa de transformar o que aconteceu ontem naquele cantinho do Centro da cidade em uma a\u00e7\u00e3o de bandidos n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida. Outra coisa que n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida \u00e9 a tentativa de transformar um movimento bastante amplo e heterog\u00eaneo numa patriotada totalmente despolitizada e que v\u00e3o as ruas apenas para fazer um carnaval e &#8220;protestar contra a corrup\u00e7\u00e3o e roubalheira&#8221;. Pois, para mim, roubalheira e corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que os que produzem n\u00e3o detenham a posse dos meios de produ\u00e7\u00e3o, contudo n\u00e3o \u00e9 essa a reivindica\u00e7\u00e3o central do movimento, pelo menos at\u00e9 agora. \u00c9 preciso ter um pouco de cr\u00edtica antes de aceitar qualquer explica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil que coloca a &#8220;a\u00e7\u00e3o dos v\u00e2ndalos&#8221; como algo \u201cextremamente danoso para a sociedade\u201d. Faz-se necess\u00e1rio compreender os engendramentos econ\u00f4micos e sociais que levam uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro \u00e0s ruas e porque fatias menores dessa massa adotam atitudes que como dizem por ai \u201cn\u00e3o condizem com a do\u00e7ura do carioca\u201d.<\/p>\n<p>A quantidade de dinheiro novo que ingressou na nossa economia nos \u00faltimos anos, distribu\u00edda fartamente via BNDES entre empreiteiras e um restrito n\u00famero de corpora\u00e7\u00f5es veio gradualmente encarecendo o custo de vida do brasileiro. O carioca tem sentido na pele, e de maneira bem particular, os resultados desses excessos do governo na hora de brincar com o valor do dinheiro. N\u00e3o nos esque\u00e7amos de que o Maracan\u00e3 custou 1Bi aos cofres p\u00fablicos, \u00e9 muito mais que os \u201cvitrais franceses\u201d da Alerj. N\u00e3o nos esque\u00e7amos de que antes do aumento do pre\u00e7o final dos produtos e servi\u00e7os chegar \u00e0s passagens, ele j\u00e1 havia chegado aos im\u00f3veis, alimentos, combust\u00edveis e diversos outros bens de consumo num pa\u00eds onde o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 de m\u00edseros R$ 678,00.<\/p>\n<p>Numa r\u00e1pida olhadela para os diversos grupos que estiveram na porta da Alerj ontem, e voc\u00ea s\u00f3 saberia disso se estivesse l\u00e1, percebiam-se pessoas que destoavam da passeata \u201cpaz &amp; amor\u201d da Avenida Rio Branco. Percebiam-se, para al\u00e9m dos grupos de punks, grupos de torcedores organizados oriundos da baixada fluminense (algumas pixa\u00e7\u00f5es e palavras de ordem denotam a presen\u00e7a deles), pessoas do sub\u00farbio \u2013 e eu tamb\u00e9m sou do sub\u00farbio \u2013 que passam por problemas diferentes dos universit\u00e1rios brancos da zona sul e zonas mais nobres da cidade. Moradores de favelas ou bairros pobres que trazem para as ruas um ac\u00famulo de uma vida inteira de contato violento com o Estado e geralmente essa viol\u00eancia \u00e9 proporcionada pelos mesmos personagens que estavam \u201cprotegendo\u201d a Alerj ontem. Essas pessoas v\u00eam de locais onde o filho chora e a m\u00e3e n\u00e3o v\u00ea. Onde a viol\u00eancia do Estado se apresenta de uma forma brutal e organizada, respaldada por um conjunto de leis constru\u00eddas das elites para as classes populares em uma estrutura totalmente vertical e sem canais de di\u00e1logo. Tais grupos se juntam a pessoas que passaram pela escalada da viol\u00eancia policial no protesto do Maracan\u00e3 no Domingo, onde os PMs perseguiram de forma desumana manifestantes pac\u00edficos dentro da Quinta da Boa vista, local onde eles foram trancafiados e enjaulados como animais. Juntam-se \u00e0s pessoas que resistiram pacificamente \u00e0 viol\u00eancia policial na porta da Aldeia Maracan\u00e3 e foram brutalmente dispersados e impedidos de seu direito constitucional de manifesta\u00e7\u00e3o, quando da sua desocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel minimizar o simbolismo da destrui\u00e7\u00e3o de bancos, pr\u00e9dios representativos do poder p\u00fablico e restaurantes caros onde a maior parte destas pessoas n\u00e3o tem acesso no seu cotidiano. Outra coisa que n\u00e3o p\u00f4de ser vista por quem n\u00e3o esteve na porta da Alerj \u00e9 que quando a destrui\u00e7\u00e3o chegava \u00e0s bancas de jornal e pequenas lojas, muitas pessoas impediam a a\u00e7\u00e3o, evitando assim a perda de patrim\u00f4nio do verdadeiro trabalhador. As picha\u00e7\u00f5es com mensagens pol\u00edticas que s\u00e3o reprimidas por uma massa moralista s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rias numa cidade onde os muros est\u00e3o todos pichados por nomes e mensagens sem sentido.<\/p>\n<p>Pois eu digo, sem vergonha nenhuma, que as pessoas que ocuparam a Alerj ontem muito me representam. O moralismo paz &amp; amor da sociedade \u00e9 que n\u00e3o me representa. N\u00e3o me representa o olhar diferente para manifesta\u00e7\u00f5es id\u00eanticas em pa\u00edses europeus que utilizam as mesmas pr\u00e1ticas e que s\u00e3o reprimidas pelas mesmas armas, onde no Brasil s\u00e3o v\u00e2ndalos e na Fran\u00e7a s\u00e3o manifestantes. \u00c9 preciso ler as entrelinhas nos jornais para encontrar o real nelas, os conflitos abertos que existem e sempre existiram e a quem interessa criminalizar o radicalismo das a\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se esque\u00e7am dos tiros de fuzil, n\u00e3o se esque\u00e7am dos dois rapazes atingidos por balas de pistola, e n\u00e3o eram balas de borracha. O grito das Torcidas organizadas muito me representa. Os cabelos moicanos dos punks muito me representam. O A de anarquia muito me representa. A viol\u00eancia policial \u00e9 real, o sufoco econ\u00f4mico tamb\u00e9m. Se voc\u00ea ainda n\u00e3o sentiu, vai sentir em breve. S\u00f3 espero que n\u00e3o te chamem de bandido quando isso acontecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fernando Monteiro As pessoas que estiveram na Alerj n\u00e3o s\u00e3o v\u00e2ndalos. Eu estive na porta da Alerj e n\u00e3o sou v\u00e2ndalo. A tentativa de transformar o que aconteceu ontem naquele cantinho do Centro da cidade em uma a\u00e7\u00e3o de bandidos n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida. 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