{"id":275,"date":"2013-06-28T19:39:09","date_gmt":"2013-06-28T22:39:09","guid":{"rendered":"http:\/\/daslutas.wordpress.com\/?p=275"},"modified":"2013-06-28T19:39:09","modified_gmt":"2013-06-28T22:39:09","slug":"sobre-os-ultimos-dias-e-os-proximos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/?p=275","title":{"rendered":"Sobre os \u00faltimos dias e os pr\u00f3ximos"},"content":{"rendered":"<p>por Ricardo Gomes*<\/p>\n<div style=\"width: 1162px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/imguol.com\/c\/noticias\/2013\/06\/25\/25jun2013---criancas-moradoras-da-comunidade-da-rocinha-no-rio-de-janeiro-carregam-faixa-durante-manifestacao-no-bairro-nesta-terca-feira-a-intencao-dos-organizadores-do-protesto-e-seguir-em-passeata-1372194790019_1920x1080.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" \" alt=\"\" src=\"http:\/\/imguol.com\/c\/noticias\/2013\/06\/25\/25jun2013---criancas-moradoras-da-comunidade-da-rocinha-no-rio-de-janeiro-carregam-faixa-durante-manifestacao-no-bairro-nesta-terca-feira-a-intencao-dos-organizadores-do-protesto-e-seguir-em-passeata-1372194790019_1920x1080.jpg\" width=\"1152\" height=\"648\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7as da Rocinha durante manifesta\u00e7\u00e3o. Foto por Chistophe Simon\/AFP Photo.<\/p><\/div>\n<blockquote><p>Mesmo entre a fuma\u00e7a do g\u00e1s lacrimog\u00eanio deve surgir -e sempre surge- o desejo de querer mais, de n\u00e3o aceitar que n\u00e3o se pode arriscar tudo por uma outra vida.<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"justify\">A viol\u00eancia constituinte que tomou as ruas do Brasil nos \u00faltimos dias destrambelhou todo o andamento lento da pol\u00edtica formal. As for\u00e7as foram para a rua e o imponder\u00e1vel desarticulou discursos e pr\u00e1ticas, tornou real o que era imposs\u00edvel e assim revitalizou a pol\u00edtica. Essa viol\u00eancia constituinte transpassou todos, o inconsciente da luta rasgou toda a cidade. Ela, que nunca esteve morta, soube se juntar numa multid\u00e3o sem s\u00edntese, num grande e intensivo desejo de outro mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">A Favela, espa\u00e7o insurgente que num movimento err\u00e1tico escreve suas geografias monstruosas num territ\u00f3rio que n\u00e3o devia ser o seu, praticando uma desterritorializa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o estatal, carrega a longa hist\u00f3ria de uma di\u00e1spora que majoritariamente n\u00e3o aceitou entrar num processo de constante endividamento\/submiss\u00e3o a que todo homem civilizado deve sucumbir. Ser civilizado \u00e9 sucumbir a um processo penoso de endividamento, e de consequente culpabiliza\u00e7\u00e3o pela d\u00edvida original. Processo que n\u00e3o se esquece, que n\u00e3o permite esquecimento, que marca os corpos em rela\u00e7\u00e3o a uma lei transcendental que \u00e9 preciso obedecer e sempre lembrar. N\u00e3o devemos esquecer que \u00e9 justo isto que censuram aos populares desavisados, \u2018eles dan\u00e7am e cantam para esquecer\u2019.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dessa terr\u00edvel inveja e ressentimento \u00e9 formulado o \u2018eu\u2019, unidade substancial que existe para referendar a d\u00edvida transcendente, que s\u00f3 existe quando obedece. Devedor seguro de seu bom comportamento, cabisbaixo, convicto da impossibilidade geral de n\u00e3o ser assim. Por outro lado, mas n\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o, ou para ser mais preciso, no meio disso, temos a experimenta\u00e7\u00e3o, o improviso, o riso leve que potencializa o grito mais intenso de dor e sua supera\u00e7\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o coletiva. A experimenta\u00e7\u00e3o nos atravessa, a favela est\u00e1 nas ruas porque ainda n\u00e3o sabemos o que fazer e mesmo entre a fuma\u00e7a do g\u00e1s lacrimog\u00eanio deve surgir e sempre surge o desejo de querer mais, de n\u00e3o aceitar que n\u00e3o se pode arriscar tudo por uma outra vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na Mar\u00e9, esta forma de protesto vivo chegou em um dos seus pontos mais radicais. Depois de uma manifesta\u00e7\u00e3o popular dos moradores do complexo de favelas da regi\u00e3o, a pol\u00edcia reagiu de maneira absolutamente violenta, como conv\u00e9m a esta for\u00e7a do Estado em seu direito irrestrito de escolher quem deve ou n\u00e3o morrer. Matou, por vingan\u00e7a e por prazer, para tentar restabelecer uma paz que nunca existiu, para tentar formalizar uma harmonia que nem eles acreditam. A pol\u00edcia age mais pela for\u00e7a em si do que em nome de algum suposto processo civilizat\u00f3rio. N\u00e3o digo que este processo n\u00e3o exista, ao contr\u00e1rio, \u00e9 realmente ele que \u00e9 o pilar da a\u00e7\u00e3o policial, por\u00e9m, para a pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 ele que legitima esta a\u00e7\u00e3o, s\u00e3o dois extremos que n\u00e3o se olham. Vemos hoje uma \u2018cultura\u2019 quase independente do Estado que aplica toda a viol\u00eancia. Excesso negado que n\u00e3o cessa de aparecer cotidianamente, a BOPE \u00e9 sua efetividade estatal, mas \u00e9 s\u00f3 um dentre outros lugares onde isso acontece. Talvez seja o mais evidente. O que \u00e9 preciso afirmar \u00e9 que a viol\u00eancia utilizada do BOPE n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a viol\u00eancia do aparelho estatal, ela est\u00e1 disseminada como pr\u00e1tica cotidiana, \u00e9 a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o da alteridade que est\u00e1 em jogo, no BOPE ou nas ruas, no Estado repressor ou em coletivos pol\u00edticos que tamb\u00e9m n\u00e3o sabem lidar com as diferen\u00e7as concretas.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o h\u00e1 massacre de multid\u00f5es insurgentes que n\u00e3o necessitem de uma voyeur. O massacre \u00e9 feito para ser visto, para ser vivenciado e deliciado. Se por acaso, a tv n\u00e3o mostra ao vivo \u00e9 s\u00f3 por uma quest\u00e3o de estrat\u00e9gia da visibilidade. N\u00e3o \u00e9 o momento adequado para usar tal imagem, os olhos e est\u00f4magos ainda n\u00e3o querem saciar este ritual de purifica\u00e7\u00e3o e ordenamento. No dia seguinte, por\u00e9m, todos os jornais estampam o massacre a partir de suas pr\u00f3prias narrativas. A narrativa de quem quer transformar tudo neste ritual necess\u00e1rio onde o que n\u00e3o \u00e9 reconhecido deve ser extirpado. Eles precisam deixar claro: quem n\u00e3o participa do processo de submiss\u00e3o, quem n\u00e3o reconhece as tais leis transcendentais \u00e0s quais \u00e9 preciso se submeter, quem causa preju\u00edzo ao andamento de toda a engrenagem sociopata e identit\u00e1ria, deve pagar. Quem destr\u00f3i o la\u00e7o, sempre t\u00e3o fr\u00e1gil quanto extenso, da ininterrupta explora\u00e7\u00e3o deve sofrer as consequ\u00eancias de ter acenado com um desejo por diferen\u00e7a. O pagamento deste preju\u00edzo, desta aud\u00e1cia, se transforma num ritual vis\u00edvel e marcante, reafirma uma condi\u00e7\u00e3o supostamente imut\u00e1vel e vinga (\u00e0s escondidas, porque n\u00e3o se trata de vingan\u00e7a vulgar e sim do processo de reafirma\u00e7\u00e3o de um formato social) o medo de quem nunca tentou, fortalecendo sua convic\u00e7\u00e3o submissa.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o tratamos aqui da favela como local ideal de conviv\u00eancia, mas sim como modelo aberto de experimenta\u00e7\u00e3o para outras formas de vida. Sabemos dos problemas e limites deste modelo, do sexismo, as tentativas de hierarquiza\u00e7\u00e3o violenta e outras coisas mais. Mas isto torna a favela algo ainda mais importante. Primeiro por que trata-se de n\u00e3o permitir an\u00e1lise ou pr\u00e1tica que tenha uma fundamenta\u00e7\u00e3o puramente reflexiva, tudo surge das lutas concretas. A teoria n\u00e3o deve se afastar da constante afirma\u00e7\u00e3o da vida. O que ela faz \u00e9 um movimento complexo de coopera\u00e7\u00e3o, de resson\u00e2ncia, ou seja, trata-se de uma pr\u00e1tica te\u00f3rica revolucionaria. Assim n\u00e3o podemos imaginar que possa haver algum lugar de pura liberdade, lugar assim s\u00f3 serve para criar modelos vazios e abstratos que n\u00e3o cessaram de ser no m\u00e1ximo insuficiente e no m\u00ednimo violentos, pois n\u00e3o permite o desdobramento concreto das diferen\u00e7as. N\u00e3o existe progresso, existe produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos que saber o que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 a favela, mas sim como ela est\u00e1 em constante processo de produ\u00e7\u00e3o de si e a qu\u00ea isto serve. Assim, consideramos este espa\u00e7o como lugar privilegiado porque, como j\u00e1 dissemos, trata-se de um espa\u00e7o de inven\u00e7\u00e3o \u2018por natureza\u2019. N\u00e3o h\u00e1 vida que n\u00e3o seja desde sempre luta, resist\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo. Este impulso ziguezagueante se articula com as outras for\u00e7as vivas em toda a cidade. Isto que corta a cidade irrompeu no asfalto, e se torna especialmente significativo se temos em conta o processo de remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e \u201cbrancas\u201d via especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que vivem as favelas. De onde a vida n\u00e3o poderia ter ficado, ela foi para onde ela n\u00e3o deveria ter ido: voltou \u00e0s ruas, para ajudar a disputar a cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quando os moradores do complexo da Mar\u00e9 foram mais uma vez para as ruas, confiantes nas ultimas manifesta\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro, sofreram dur\u00edssima repress\u00e3o. Repress\u00e3o inimagin\u00e1vel mesmo para quem esteve nas ruas estes \u00faltimos dias. Por volta de 10 moradores foram assassinados pela pol\u00edcia depois que traficantes teriam supostamente se aproveitado da manifesta\u00e7\u00e3o para promover um arrast\u00e3o na Av. Brasil. O BOPE entrou na comunidade para reprimir tal a\u00e7\u00e3o. Neste primeiro confronto um sargento do BOPE e um morador acabaram sendo mortos. Depois o que se seguiu foi a sistem\u00e1tica l\u00f3gica de ca\u00e7a e destrui\u00e7\u00e3o que o BOPE utiliza em todas as comunidades do estado. O povo se revoltou e foi para as ruas das favelas do complexo da Mar\u00e9 exigindo o fim do massacre pois o BOPE prometia outra invas\u00e3o \u00e0 noite. As pessoas resistiram bravamente e, numa estrat\u00e9gia que articulou ruas e redes digitais, conseguiu expulsar o BOPE da comunidade e a promessa de um dos Comandante da PM de que naquela noite o BOPE n\u00e3o voltaria mais. Ora, o desejo por mais democracia que bagun\u00e7ou o consenso social e que permitiu a continuidade das manifesta\u00e7\u00f5es esteve na Mar\u00e9 e n\u00e3o pode ser destru\u00eddo. A for\u00e7a assassina do Estado foi expulsa por mais uma manifesta\u00e7\u00e3o que deixa claro quanta pot\u00eancia temos, juntos e m\u00faltiplos. Devemos seguir, fortes, sem paranoias, com amplos processos de que visem quebras de paradigmas e pequenos grupos e a\u00e7\u00f5es contra coisas fundamentais e espec\u00edficas como a imediata desmilitariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias e outras mil coisas. Seguir no passo da multid\u00e3o irredut\u00edvel que colocou em suspens\u00e3o a suposta dicotomia entre publico e privado, descortinando a rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o urbana que existe entre pol\u00edticos e empres\u00e1rios. \u00c9 a hora da potencia dos heter\u00f4nimos em favor da vida, contra a pol\u00edtica racista e assassina!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 certo dizer que as vit\u00f3rias se relativizam depois da morte de moradores da Mar\u00e9, mas isto n\u00e3o deve servir para desestimular a for\u00e7a das lutas, ao contr\u00e1rio, deve servir para, al\u00e9m de repudiar veementemente quem praticou tais atrocidades, perceber que estamos realmente incomodando o consenso que uma vez imaginou ter ganho tudo. Imaginou que as for\u00e7as de toda a popula\u00e7\u00e3o haviam se submetido aos pactos de governabilidade de que ela nunca participou. A cidade sofre, mas continua se movendo e produzindo possibilidades de revitaliza\u00e7\u00f5es potentes. Por isso mais do que nunca \u00e9 hora de continuar nas ruas, n\u00e3o devemos ter medo, estamos apenas esquentando, ainda podemos causar muitos problemas ao poder constitu\u00eddo, ainda podemos ter muitas vit\u00f3rias como foram a redu\u00e7\u00e3o das tarifas de \u00f4nibus, a expuls\u00e3o dos policiais da Mar\u00e9 e mesmo a nossa grande jun\u00e7\u00e3o contra o estado de coisas atuais, enfim, continuemos que amanh\u00e3 tem mais e depois tamb\u00e9m, e depois e depois e mais e mais\u2026 Vem para a rua, vem todo mundo!!!!!<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Ricardo Gomes colabora livremente com o blog deste coletivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ricardo Gomes* Mesmo entre a fuma\u00e7a do g\u00e1s lacrimog\u00eanio deve surgir -e sempre surge- o desejo de querer mais, de n\u00e3o aceitar que n\u00e3o se pode arriscar tudo por uma outra vida. 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