{"id":524,"date":"2013-08-05T17:07:43","date_gmt":"2013-08-05T20:07:43","guid":{"rendered":"http:\/\/daslutas.wordpress.com\/?p=524"},"modified":"2013-08-05T17:07:43","modified_gmt":"2013-08-05T20:07:43","slug":"pequenos-contos-sobre-a-realidade-e-violencia-de-ser-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/?p=524","title":{"rendered":"Pequenos contos sobre a realidade e viol\u00eancia de ser mulher"},"content":{"rendered":"<p><strong><a href=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/08\/machismo-marcas-invisc3adveis.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-525\" alt=\"Machismo-marcas-invis\u00edveis\" src=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/08\/machismo-marcas-invisc3adveis.jpg?w=547\" width=\"547\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/08\/machismo-marcas-invisc3adveis.jpg 859w, https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/08\/machismo-marcas-invisc3adveis-300x174.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 547px) 100vw, 547px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center\"><strong>A luta \u00e9 todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center\">Por uma feminista an\u00f4nima para o Das Lutas<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Depois de toda a pol\u00eamica que a Marcha das Vadias \u201ccausou\u201d, resolvi pensar o \u201cser mulher, ser feminino\u201d, em temas t\u00e3o pol\u00eamicos quanto a performance do Coletivo Coiote, que surpreendeu a tantos. Resolvi pensar cada ponto e escrever algo sobre eles, de maneira confessional ou ficcional, dependendo do olhar do leitor. Apenas uma contribui\u00e7\u00e3o de uma mulher, ativista, sobre o que \u00e9 ser uma mulher em tempos neoliberais que em nada s\u00e3o libert\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Bonecas e \u00c1rvores.<\/strong> S\u00f3 tenho irm\u00e3os, g\u00eanero masculino, e sempre gostei de brincadeiras de meninos. Ali\u00e1s, gostava de brincadeiras em que podia estar com meus irm\u00e3os. Mas nunca brincamos de bonecas. Eu at\u00e9 tentava, mas sempre vinha um tio inconveniente dizendo: \u201cBoneca \u00e9 coisa de menina, voc\u00ea s\u00e3o viados?\u201d. E eu me pegava sozinha. A heteronormatividade me isolava por eu ser menina. E l\u00e1 ia eu pro quarto brincar sozinha. E quando cismava de brincar de subir em \u00e1rvores? Sempre ouvia que tinha que me dar ao respeito, que meus irm\u00e3os podiam ver minhas calcinhas. E eu parei de subir em \u00e1rvores.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Vergonha.<\/strong> Outra quest\u00e3o que sempre foi tabu na fam\u00edlia foi a troca de roupa. Quando pequenos, tom\u00e1vamos banho juntos, brinc\u00e1vamos na piscina, e eu s\u00f3 com a parte de baixo do biquini. Na fase em que comecei a desenvolver seios, passei a ouvir constantemente: \u201cn\u00e3o se troca na frente dos seus irm\u00e3os, cobre suas vergonhas\u201d. Eu n\u00e3o entendia porque meus seios ou minha vagina deveriam ser vergonhas, mas me sentia t\u00e3o constrangida por esses coment\u00e1rios que demorei a ter uma rela\u00e7\u00e3o mais livre com meu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Abuso.<\/strong> Tenho pouqu\u00edssimas lembran\u00e7as da minha inf\u00e2ncia, eu nunca entendi muito bem porqu\u00ea. Tratei isso em terapia, busquei compreender minhas quest\u00f5es. Duas imagens eram recorrentes. Um menino mais velho do col\u00e9gio que eu estudava, que me chamava de Maria Peidona, e me humilhava em sala de aula, mas me convidava constantemente para ir \u00e0 casa dele brincar. E eu ia, pois achava que ele queria ser meu amigo. Anos depois comecei a sonhar que \u00e0 noite ele me tocava nessas visitas. A outra imagem recorrente era a de uma amigo da minha m\u00e3e que me deu um livro sobre duendes. Numa viagem pro nosso s\u00edtio, ele prop\u00f4s de fazermos um altarzinho pros duendes visitarem de madrugada, e ficarmos esperando at\u00e9 eles aparecerem. Montamos juntos e ele ficava fazendo carinho nos meus cabelos e me dizendo que os duendes iam adorar me conhecer. Um pouco antes do come\u00e7o da \u201cvig\u00edlia\u201d, minha m\u00e3e apareceu com uma cara apavorante e me levou pra dentro. Me disse pra nunca mais ficar sozinha com ele. E ela nunca mais falou com aquele amigo. Demorei a entender que talvez tenha acontecido algo que eu n\u00e3o tenha processado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Estupro.<\/strong> Com 15 anos, eu resolvi que queria perder a virgindade. Tinha amigos mais velhos, mais livres, que falavam de sexo de maneira simples, como se fosse algo que eu deveria fazer. Eu concordava com isso, mas meu namorado ainda achava que era cedo, pois eu era \u201cmo\u00e7a de fam\u00edlia\u201d. Comecei a me relacionar com um homem mais velho, que era inteligente e interessante. Ele morava pr\u00f3ximo, e todos n\u00f3s \u00edamos para a casa dele beber e ver filmes. Uma noite dessas, alonguei minha estadia l\u00e1 e achei que seria legal transar com ele. Mas na hora, desisti. Ele n\u00e3o. Ele foi categ\u00f3rico: \u201cn\u00e3o d\u00e1 pra desistir agora\u201d. Demorei um temp\u00e3o para descobrir e aceitar que ele havia me estuprado. Eu achava que tinha sido minha escolha, que eu tinha quebrado um \u201ctabu\u201d. E nem percebi que demorei mais de 2 anos para ter outra rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Aborto.<\/strong> Na adolesc\u00eancia, passando pra idade adulta, conheci um homem. Me apaixonei. Coisas normais das rela\u00e7\u00f5es humanas. Numa virada do destino, ou do ov\u00e1rio e do espermatoz\u00f3ide, engravidei. Peguei o telefone e liguei para esse homem, falando o que havia acontecido. Ele falou que eu me virasse, que n\u00e3o era responsabilidade dele. Perguntei: Como n\u00e3o? \u00c9 nossa responsabilidade, n\u00f3s fizemos isso juntos! E, mais uma vez ele se colocou como alheio \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. \u201cComo vou saber que \u00e9 meu mesmo? Voc\u00ea tem jeito que d\u00e1 pra todo mundo! Se vira, n\u00e3o quero saber de filho, j\u00e1 tenho dois!\u201d. Fui pra cl\u00ednica, entre l\u00e1grimas e medo. A anestesia n\u00e3o pegou e eu senti tudo. Tive uma hemorragia absurda e fiquei an\u00eamica. No mesmo dia, uma menina de 16 anos morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Preconceito.<\/strong> Minha fam\u00edlia (n\u00facleo menor) estava passando por uma situa\u00e7\u00e3o muito delicada financeiramente. Muita luta e muita ang\u00fastia. Recebi uma liga\u00e7\u00e3o de uma pessoa da fam\u00edlia, j\u00e1 aos berros na primeira palavra. Dizia assim: \u201cEssa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 culpa sua! Voc\u00ea \u00e9 a respons\u00e1vel pela desgra\u00e7a da fam\u00edlia, porque coloca esses dem\u00f4nios dentro de casa! Essa religi\u00e3o de puta e viado!\u201d. E desligou o telefone na minha cara. Sou do candombl\u00e9 desde 14 anos. Na \u00e9poca a pessoa era evang\u00e9lica. E hoje essa pessoa \u00e9 cat\u00f3lica, de assistir missa todo domingo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Intoler\u00e2ncia.<\/strong> Devido minha participa\u00e7\u00e3o como manifestante e ativista das lutas feministas na Marcha das Vadias, que ocorreu durante a Jornada Mundial da Juventude Cat\u00f3lica, fui recriminada, exclu\u00edda e amea\u00e7ada. N\u00e3o somente por estranhos, mas por conhecidos bem pr\u00f3ximos. Mas n\u00e3o na minha cara, porque seria estranho. \u00c9 mais f\u00e1cil me violar e violar minhas escolhas pelas costas. E \u00e9 mais f\u00e1cil seguir na intoler\u00e2ncia de maldizer uma manifesta\u00e7\u00e3o que voc\u00ea n\u00e3o entende, do que buscar saber porque ela existe e qual o seu contexto no Brasil e no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Viol\u00eancia psicol\u00f3gica.<\/strong> Fui ao motel com o namorado da \u00e9poca. Era a primeira vez que \u00edamos transar, eu estava super entregue, feliz e apaixonada. Depois de tudo, ele se levantou e foi ao banheiro. De repente, vira pra mim l\u00e1 de dentro e diz: \u201cVoc\u00ea precisa emagrecer, hein?\u201d. A autoestima foi no p\u00e9. Mesmo depois de se explicar e dizer que n\u00e3o era bem isso que ele queria dizer, ficou uma marca. N\u00e3o foi a \u00fanica inadequa\u00e7\u00e3o criada por ele. Minha vagina era uma quest\u00e3o pois n\u00e3o gostava de depilar completamente como ele gostava, dentre outras reclama\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios depreciativos.Decidi que a psicopatia dele n\u00e3o cabia na minha vida nem no meu sexo. Mas os espelho eventualmente me angustia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Al\u00edvio.<\/strong> Apesar de ter crescido num ambiente extremamente machista, aos poucos fui vendo paredes ruindo, os homens partindo e as mulheres segurando todas as ondas. Criando os filhos sozinhas, trabalhando fora, rompendo com todas as amarras. De repente, me percebi numa fam\u00edlia de mulheres fortes, inteiras, sem precisar de uma contrapartida masculina para manter uma fam\u00edlia funcionando, sem odiar os homens por n\u00e3o estarem ali. Elas eram suficientemente completas pra dar conta daquilo que eles tinham incapacidade ou medo de se comprometer. N\u00e3o era um feminismo acad\u00eamico, mas um feminismo emp\u00edrico, aqueles que se sente nos ossos e sangue. Meus irm\u00e3os se apaixonaram por mulheres fortes, um al\u00edvio. Machismo cortado na carne.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Medo.<\/strong> Todos os livros que leio, todas as teorias que apreendo, todos os debates que participo ainda n\u00e3o d\u00e3o conta da injusti\u00e7a contra as mulheres. Ainda somos violadas, violentadas f\u00edsica e emocionalmente, ainda somos julgadas pela forma de vestir, pela forma de falar, n\u00e3o temos a liberdade de andar na rua sem ouvir piadinhas, ou cantadas inapropriadas e grosseiras. N\u00e3o podemos ficar sozinhas por estar sozinhas sem algu\u00e9m questionar sua condi\u00e7\u00e3o sexual. Tenho medo de n\u00e3o ver um mundo menos machista ainda na minha gera\u00e7\u00e3o. De n\u00e3o ver menos mulheres morrerem devido \u00e0 ilegalidade do aborto, de n\u00e3o ver menos estupros, menos viol\u00eancia causada pela heteronormatividade faloc\u00eantrica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\"><strong>Luta.<\/strong> Esse ponto est\u00e1 em aberto. \u201cA luta \u00e9 todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Acho que todas as mulheres que j\u00e1 viveram viol\u00eancias machistas deveriam falar sobre isso agora. Pra mostrar o que realmente \u00e9 viol\u00eancia, e porque as mulheres est\u00e3o nas ruas. Que o machismo est\u00e1 entranhado na sociedade, que n\u00e3o \u00e9 uma coisa simples de se resolver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A luta \u00e9 todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia Por uma feminista an\u00f4nima para o Das Lutas Depois de toda a pol\u00eamica que a Marcha das Vadias \u201ccausou\u201d, resolvi pensar o \u201cser mulher, ser feminino\u201d, em temas t\u00e3o pol\u00eamicos quanto a performance do Coletivo Coiote, que surpreendeu a tantos. 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