{"id":632,"date":"2013-10-04T12:55:41","date_gmt":"2013-10-04T15:55:41","guid":{"rendered":"http:\/\/daslutas.wordpress.com\/?p=632"},"modified":"2013-10-04T12:55:41","modified_gmt":"2013-10-04T15:55:41","slug":"as-acumulacoes-das-lutas-e-os-exus-materialistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/?p=632","title":{"rendered":"As acumula\u00e7\u00f5es das lutas e os Exus materialistas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/10\/escultura_de_exu_na_praccca7a_dos_orixacc81s1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-635\" alt=\"Exus materialistas\" src=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/10\/escultura_de_exu_na_praccca7a_dos_orixacc81s1.jpg\" width=\"547\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/10\/escultura_de_exu_na_praccca7a_dos_orixacc81s1.jpg 1024w, https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/10\/escultura_de_exu_na_praccca7a_dos_orixacc81s1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 547px) 100vw, 547px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>&#8220;O que vai para rua n\u00e3o volta igual.&#8221; * Por <strong>Ricardo Gomes &#8211; integrante Das Lutas<\/strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">De todo este processo de lutas, acumula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, afetivas e sociais que se intensificou desde junho, o que temos hoje e que salta aos olhos \u00e9 uma dispers\u00e3o monumental. Diversos grupos se constitu\u00edram nas ruas e fora delas, sem unidade fechada. O Black Bloc passou de t\u00e1tica para movimento e voltou a ser t\u00e1tica, militantes de partidos de esquerda souberam, em v\u00e1rios momentos, compor com militantes anarquistas e agora os professores come\u00e7am a se distanciar massivamente dos sindicatos. Ainda poder\u00edamos dar outros exemplos mas este s\u00e3o suficientemente significantes. Esta dispers\u00e3o \u00e9, sobretudo, um anuncio de novo (e outro) aglutinamento. <strong>O que vai para rua n\u00e3o volta igual.<\/strong> O que surge destas rupturas e novos encontros n\u00e3o carregam no seu poss\u00edvel nome as formaliza\u00e7\u00f5es que foram deixadas para tr\u00e1s. Neste sentido podemos falar de uma constru\u00e7\u00e3o real a partir das lutas. Foi criado uma experimenta\u00e7\u00e3o selvagem dos encontros nas ruas, o que comp\u00f5e e aumenta pot\u00eancia \u00e9 mantido, o que tenta inviabilizar os encontros e produ\u00e7\u00f5es \u00e9 questionado at\u00e9 se tornar irrelevante. Hoje, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre a produtividade desta pr\u00e1tica. Poss\u00edveis d\u00favidas recaem agora sobre as possibilidades do fortalecimento deste encontro e de sua for\u00e7a produtiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O que estamos acompanhando na cinel\u00e2ndia e no seu entorno n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um massacre contra os professores e a popula\u00e7\u00e3o que lhe apoia, articulado entre os poderes constitu\u00eddos, a m\u00eddia da elite econ\u00f3mica e cultural e a complac\u00eancia de quem s\u00f3 reage de maneira subserviente. Estamos acompanhando \u00e9 a feitura, ainda fr\u00e1gil, de uma linha tra\u00e7ando e ligando grupos que at\u00e9 bem pouco tempo estavam distantes, para dizer o m\u00ednimo. Quando as greves dos professores come\u00e7aram boa parte deles se posicionaram contra os Black Bloc repetindo o, j\u00e1 envelhecido, julgamento e condena\u00e7\u00e3o da m\u00eddia tradicional. Condena\u00e7\u00e3o que tentava de um lado identificar os manifestantes, separando os que n\u00e3o se rebaixavam diante de seus desejos, e regular os outros que por ingenuidade, ou mesmo por desejo de obedi\u00eancia, se colocavam abertos \u00e0s pautas externas que a m\u00eddia trazia, enfim um processo de regula\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es desde fora. Mas n\u00e3o se trata de opor \u00e0s mentiras da m\u00eddia uma outra verdade objetiva, mas sim de entender que s\u00f3 existe verdade na produ\u00e7\u00e3o das multiplicidades, ou melhor, a verdade \u00e9 uma esp\u00e9cie de resultado material dos tensionamentos temporais internos a toda multiplicidade ou multid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A linha de dispers\u00e3o, fr\u00e1gil mas cortante, \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u2018linha de fuga\u2019. O filosofo franc\u00eas Gilles Deleuze e o psicanalista Feliz Guattari chamavam de linha de fuga \u2018Do esquizo ao revolucion\u00e1rio vai s\u00f3 toda a diferen\u00e7a que h\u00e1 entre o que foge e aquele que sabe fazer fugir aquilo de que foge, rompendo um tubo imundo, fazendo passar um dil\u00favio, libertando um fluxo\u2026\u2019 (Anti-Edipo, pag 357), ou seja, uma fuga ativa, pura perman\u00eancia de um processo de resist\u00eancia e inven\u00e7\u00e3o. Resist\u00eancia por que j\u00e1 n\u00e3o se locomove mais atrav\u00e9s de antigas categorias e institui\u00e7\u00f5es apropriadas pelo poder. Inven\u00e7\u00e3o por que dentro das condi\u00e7\u00f5es materiais sabe compor novos corpos que for\u00e7am outras temporalidades. Nesta \u00e9tica experimental que constitui a forma\u00e7\u00e3o das multiplicidades cooperantes chega um momento de conjun\u00e7\u00e3o em que aquilo que \u00e9 destrutivo para a continuidade constituinte \u00e9 combatido, confrontado. N\u00e3o \u00e9 posto para fora porque n\u00e3o h\u00e1 um fora (no sentido de exclus\u00e3o) em rela\u00e7\u00e3o a qual as multiplicidades se posicionam, mas h\u00e1 uma estrat\u00e9gia de n\u00e3o uso de elementos que visam enfraquecer a pot\u00eancia das multiplicidades. Sem d\u00favida alguma os arcaicos \u2018aparelhos de captura\u2019 v\u00e3o continuar funcionando, a for\u00e7a repressiva da pol\u00edcia militar, as institui\u00e7\u00f5es da democracia representativa e mesmo os sindicatos v\u00e3o tentar desestabilizar o desenvolvimento das multiplicidades. Chamamos aten\u00e7\u00e3o para este fato por que o mais f\u00e1cil \u00e9 dizer que 68 n\u00e3o aconteceu, o dif\u00edcil \u00e9 ter em mente que o PC franc\u00eas e boa parte dos sindicatos, por exemplo, foram respons\u00e1veis por n\u00e3o ter acontecido como poderia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Voltemos \u00e0s d\u00favidas. Estas linhas que tra\u00e7am, cortam e produzem s\u00f3 podem fazer isto diante 1- da dispers\u00e3o, das linhas de fuga, 2- dos encontros e 3- da composi\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o que os encontros viabilizam, gerando novos corpos sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">A dispers\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel e, cada dia mais, confirmada por diversas partes. Vemos como exemplo fundamental disso o posicionamento p\u00fablico de v\u00e1rios professores apoiando e querendo construir em conjunto com os praticantes da t\u00e1tica Black Bloc. Portanto, o in\u00edcio e desenvolvimento deste encontro monstruoso, e de tantos outros, \u00e9 o sinal mais evidente de que uma \u2018linha de fuga\u2019 faz fugir todo aquele sistema do qual se foge. Os professores saem dos seus postos hierarquizados, dentro ou fora dos sindicatos, e aceitam dialogar diretamente com que est\u00e1 nas ruas lhe apoiando, e este di\u00e1logo n\u00e3o se d\u00e1 s\u00f3 sobre a manifesta\u00e7\u00e3o mas desde j\u00e1 sobre uma poss\u00edvel outra educa\u00e7\u00e3o. <strong>Houve contamina\u00e7\u00e3o, e a t\u00e1tica Black Bloc em sua forma e for\u00e7a, ou seja, afeto que \u00e9 imediatamente coletivo e pol\u00edtico, se tornou pe\u00e7a fundamental desta outra educa\u00e7\u00e3o.<\/strong> <strong>A t\u00e1tica black bloc, que era vista, mesmo entre os manifestantes, como uma negatividade necess\u00e1ria agora consegue expor toda sua positividade produtiva e excede o puro confronto para participar da cria\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Eis o que pode gerar o encontros entre \u2018linhas de fuga\u2019.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para falar sobre melhor sobre a composi\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o dos encontros penso ser importante ressaltar: vivemos num momento que\u00a0\u00e9 chamado apropriadamente de \u2018biopol\u00edtico\u2019, onde toda a vida \u00e9 imediatamente pol\u00edtica devido a nova configura\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Sem entrar em detalhes desnecess\u00e1rios para o que desejamos com este \u2018texto\u2019, cabe lembrar que, segundo um consider\u00e1vel grupo de pensadores n\u00f3s n\u00e3o estamos mais vivendo o que foi chamado de modernidade. As categorias e modos de organiza\u00e7\u00e3o social s\u00e3o radicalmente outros, o que nos colocaria no chamado mundo p\u00f3s-moderno. Aqui utilizaremos as analises desenvolvidas por Antonio Negri, principalmente em \u2018Kairos, Alma Venus, Multitudo\u2019, pois se trata de, percebendo esta nova configura\u00e7\u00e3o, tra\u00e7ar uma positividade produtiva inicial que recoloque <strong>a pot\u00eancia do pobre como constituinte de qualquer riqueza.<\/strong> <strong>Para n\u00f3s o reconhecimento da pot\u00eancia dos pobres \u00e9 absolutamente fundamental<\/strong>, pois se trata de fortalecer um processo imanente e eterno que se organiza, ora <strong>como for\u00e7a anti-colonialista, ora como afirma\u00e7\u00e3o de outros modos de vida, outros sujeitos, necessariamente rebeldes<\/strong>, j\u00e1 que persistem numa desobedi\u00eancia amorosa, coletiva alegre e excessiva. Hoje podemos encontrar as mesmas caracter\u00edsticas em v\u00e1rios grupos que se manifestam nas ruas. Portanto, trata-se de perpetuar este processo.<br \/>\nNo p\u00f3s-moderno, segundo Negri, o fim da soberania como forma majorit\u00e1ria de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a mudan\u00e7a na forma do trabalho (a coopera\u00e7\u00e3o e o trabalho imaterial, onde o trabalho \u00e9 ao mesmo tempo intelectual e f\u00edsico e produz valor atrav\u00e9s da informa\u00e7\u00e3o e subjetividade), assume a ponta na desenvolvimento do capital. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m muda a forma como este trabalho \u00e9 expropriado pelo capital (<strong>explorar agora quer dizer regular, modular, obstruir os encontros, muito mais do que alienar, ou reprimir<\/strong>. Obviamente estes dispositivos n\u00e3o deixaram de acontecer, mas hoje eles est\u00e3o submetidos \u00e0s tentativas dos poderes constitu\u00eddos de obstruir o processo produtivo da multid\u00e3o, \u2018O Estado no p\u00f3s-moderno, organiza a explora\u00e7\u00e3o do trabalho social vivo sob a forma do controle. Isso significa que, no comum, <strong>ele organiza a exclus\u00e3o daquele pobre que \u00e9 o produtor do comum<\/strong>.\u2019 Kairos, Alma Venus, Multitudo, Antonio Negri, pag 225). Se trata de, como dissemos acima, uma apropria\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 a multid\u00e3o cooperando que cria valores e produtos. <strong>Que fique claro, sabemos na pele que a repress\u00e3o tem sido dura e absurda e que provavelmente continuar\u00e1, mas interessa afirmar a potencialidade de um encontro monstruoso que ocorreu, apesar da brutalidade. \u00c9 preciso ter a dimens\u00e3o deste encontro e fortalecer suas possibilidades, essa \u00e9 a tentativa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Acreditamos que n\u00e3o exista uma resposta exata para que o auto-governo da multid\u00e3o possa se efetivar em toda sua for\u00e7a de renova\u00e7\u00e3o temporal, renova\u00e7\u00e3o \u2018biopol\u00edtica\u2019, n\u00e3o s\u00f3 nas manifesta\u00e7\u00f5es, mas com uma aten\u00e7\u00e3o especial para este momento.<br \/>\nA composi\u00e7\u00e3o interna da multid\u00e3o, seus encontros e produ\u00e7\u00f5es e possibilidade de se auto-gerir, s\u00e3o experimenta\u00e7\u00f5es temporais, novos rascunhos de outros mundos poss\u00edveis e isso \u00e9 feito no limite prec\u00e1rio e incerto entre este mundo e os outros, o exemplo da educa\u00e7\u00e3o deixa isso claro. Mas quem faz esta ponte entre este mundo e outros? O que \u00e9 fazer est\u00e1 ponte? Quando se faz esta ponte h\u00e1, do outro lado, algo j\u00e1 formalizado?<br \/>\nUm dos mais conhecidos orix\u00e1s do candombl\u00e9 brasileiro \u00e9 Exu. O significado da palavra \u2018Exu\u2019 em yorub\u00e1 \u00e9 esfera, infinito, movimento. Por isso ele \u00e9 a entidade da comunica\u00e7\u00e3o, do movimento de levar at\u00e9 os orix\u00e1s os desejos e oferendas, tamb\u00e9m encontramos estas defini\u00e7\u00f5es do orix\u00e1 \u2018grande mestre dos caminhos; o que permite a passagem, o inicio de tudo. \u00c9 o gerador do que existe, do que existiu e do que ainda vai existir. Exu est\u00e1 presente, mais que em tudo e em todos, na concep\u00e7\u00e3o global da exist\u00eancia. \u00c9 a capacidade din\u00e2mica de tudo que tem vida.\u2019(<a href=\"http:\/\/mariapadilhadasalmas.no.comunidades.net\/index.php?pagina=1878900701\" rel=\"nofollow\">http:\/\/mariapadilhadasalmas.no.comunidades.net\/index.php?pagina=1878900701<\/a>), ou ainda \u2018senhor do princ\u00edpio e da transforma\u00e7\u00e3o. Deus da terra e do universo; na verdade, Exu \u00e9 a ordem, aquele que se multiplica e se transforma na unidade elementar da exist\u00eancia humana\u2019 (<a href=\"http:\/\/ocandomble.wordpress.com\/os-orixas\/exu\/\" rel=\"nofollow\">http:\/\/ocandomble.wordpress.com\/os-orixas\/exu\/<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Levando at\u00e9 as ultimas consequ\u00eancias o materialismo das religi\u00f5es africanas, podemos dizer que uma entidade como essa est\u00e1 em nosso meio, atualizando-se no entorno das possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o que tra\u00e7amos constantemente com outros mundos poss\u00edveis. <strong>Obviamente, n\u00e3o se trata de pensar mundos que estejam acima deste, mas de pensar a cria\u00e7\u00e3o de outros mundos a partir deste mundo, suas lutas e a\u00e7\u00f5es coletivas<\/strong>, um processo de comunica\u00e7\u00e3o com um impensado, com um de fora absoluto que est\u00e1 alem de n\u00f3s, al\u00e9m daquilo que nos forma, um porvir que n\u00e3o se restringe ao futuro dos planos de seguro. Enfim, uma dimens\u00e3o necessariamente informal do tempo que as diversas for\u00e7as conseguem colocar em jogo. Isso \u00e9 produzir dentro do eterno, \u00e9 restaurar e radicalizar um certo materialismo, com o qual tentamos trabalhar aqui, que Negri captura numa jun\u00e7\u00e3o entre Maquiavel, Espinosa e Marx, sem deixar de passar pela iman\u00eancia afirmativa de Deleuze e Foucault.<br \/>\nEnfim, esses meninos que de tantos modos se assemelham a Ex\u00fa, fazendo este percurso \u00e1rduo mas fundamental, entre uma recusa total ao estado de coisas atuais e a cria\u00e7\u00e3o coletiva de poss\u00edveis impensados, n\u00e3o nos deixa outra alternativa que n\u00e3o a de nos lan\u00e7armos tamb\u00e9m nesta <strong>experimenta\u00e7\u00e3o temporal onde a \u00fanica perda ser\u00e1 da imposi\u00e7\u00e3o do presente<\/strong>. Experimenta\u00e7\u00e3o onde a produ\u00e7\u00e3o do eterno acena mais uma vez, o que vir\u00e1 n\u00e3o deixar\u00e1 de ter em alguma medida a participa\u00e7\u00e3o criativa da multid\u00e3o, trata-se ent\u00e3o de fazer com que esta participa\u00e7\u00e3o seja a mais potente e imanente poss\u00edvel, ou seja, seja produto da e para a multid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para finalizar, afirmamos que sem nostalgia o tempo \u00e9 de a\u00e7\u00e3o, uma a\u00e7\u00e3o da e pela multid\u00e3o, pois esta a\u00e7\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda da for\u00e7a irreprim\u00edvel da gera\u00e7\u00e3o de um outro tempo.<\/p>\n<p>Abaixo dois depoimentos de professores sobre o que gerou o encontro aberto com os Black Bloc e sobre os Black Bloc. Para isso, voc\u00ea tem que estar nas ruas, por que \u00e9 ali que a a\u00e7\u00e3o de quem pratica esta t\u00e1tica se faz maior do que qualquer depoimento:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Para mim professora e grevista, s\u00e3o jovens destemidos q est\u00e3o ao lado dos professores, eles s\u00e3o nossos alunos, s\u00e3o estudantes a grande maioria da rede p\u00fablica. Hoje, quando cheguei na Cinel\u00e2ndia eles estavam no megafone, explicando o q fazer quando a PM jogar g\u00e1s de pimenta. Eles entram na linha de frente para apanhar no nosso lugar, quebram alguma coisa para tirarem o foco da PM e nos dar folga para fugir. Ajudam quem levou bomba e spray, distribuindo soro fisiol\u00f3gico e leite de magn\u00e9sio, s\u00e3o meninos e meninas, com uma disposi\u00e7\u00e3o foram do comum. A m\u00eddia quer nos vender a imagem de que esses jovens s\u00e3o v\u00e2ndalos, bandidos, mas o que tenho visto \u00e9 totalmente ao contr\u00e1rio, o vandalismo esta sendo produzido pelo Governo, Pelo Eduardo Paes, Pelo Cabral, pelos pol\u00edticos coniventes com o sistema atual, Pela PM, o vandalismo esta sendo produzido por todos aqueles que deveriam nos proteger! Ontem os Black Blocks projetaram na c\u00e2mara dos vereadores: \u201cO professor \u00e9 meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo.\u201d e eu fa\u00e7o a rec\u00edproca: \u201cO Black Block \u00e9 meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Carta de um professor aos Black Blocs, publicada ontem (Por Teresa Gouveia):<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">O cl\u00edmax do dia de hoje ocorreu pouco depois das 18 horas, quando nossa categoria reconheceu, agradeceu e deu voz aos meninos e meninas do Black Bloc RJ. Foi muito importante, principalmente vindo de uma categoria que n\u00e3o h\u00e1 muito tempo os defenestrava, mas cuja solidariedade prestada no \u00faltimo s\u00e1bado, diante da covardia cometida pela mesma for\u00e7a repressiva que tamb\u00e9m os reprime, transformou em carinho, compreens\u00e3o e ades\u00e3o. Por tr\u00e1s daqueles tecidos negros que cobrem seus rostos, vejo meus alunos e a revolta e inconformismo em potencial que existe em cada um deles.<br \/>\nQuando olho aqueles rostos jovens na rua, lutando para fazer um \u201cnovo mundo\u201d atrav\u00e9s do \u201cpoder popular\u201d, fico otimista em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Destemidos e corajosos \u00e0s raias da inconsequ\u00eancia e da loucura (e n\u00e3o ser\u00e1 na raz\u00e3o dos loucos que encontraremos as alternativas?) que \u00e9 enfrentar homens armados e treinados para matar quem questiona a ordem, confrontam tamb\u00e9m o dogma que perpetua a desigualdade social: o direito \u00e0 propriedade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">J\u00e1 escrevi aqui uma vez que educar \u00e9 transformar um ser humano para a vida em sociedade. Logo, o professor que n\u00e3o concebe a transforma\u00e7\u00e3o para si e para a realidade em que se encontra dificilmente se concretizar\u00e1 num bom educador. Gostaria muito de, num futuro n\u00e3o t\u00e3o distante, encontrar na sala dos professores um destes meninos e meninas que colocam a integridade f\u00edsica em risco para manter o povo na rua, que n\u00e3o deixam dominar-se pelos mecanismos de interioriza\u00e7\u00e3o de valores e pelas expectativas do sistema capitalista. Levando a pedagogia da a\u00e7\u00e3o para a sala de aula, provavelmente n\u00e3o se conformar\u00e3o com um modelo de escola que castra, aprisiona e reproduz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify\">Os Black Blocs nos ensinam que sem risco e a\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 transforma\u00e7\u00e3o. Quando os vi entoando que n\u00f3s, professores, somos seus amigos e que eles se indignam ao mexer conosco, vejo que o que mais querem \u00e9 aprender, mas que \u00e0s salas de aulas que lhes s\u00e3o oferecidas n\u00e3o s\u00e3o o bastante. Dever\u00edamos aprender o mesmo, e compreender que \u201ca educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro n\u00e3o parou\u201d, s\u00f3 transformou as ruas num imenso espa\u00e7o de aprendizado, sem hierarquias ou avalia\u00e7\u00f5es, onde aprendemos lado a lado e conquistamos \u00e0 custa de muito esfor\u00e7o e luta nossa emancipa\u00e7\u00e3o. \u201c<\/p>\n<p><strong>Artigo escrito por Ricardo Gomes &#8211; integrante Das Lutas<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O que vai para rua n\u00e3o volta igual.&#8221; * Por Ricardo Gomes &#8211; integrante Das Lutas De todo este processo de lutas, acumula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, afetivas e sociais que se intensificou desde junho, o que temos hoje e que salta aos olhos \u00e9 uma dispers\u00e3o monumental. 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