{"id":680,"date":"2013-10-22T17:31:10","date_gmt":"2013-10-22T20:31:10","guid":{"rendered":"http:\/\/daslutas.wordpress.com\/?p=680"},"modified":"2013-10-22T17:31:10","modified_gmt":"2013-10-22T20:31:10","slug":"cidades-insurgentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/?p=680","title":{"rendered":"Cidades Insurgentes"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/10\/paris-texas-still-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image\" id=\"i-683\" alt=\"Imagem\" src=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/10\/paris-texas-still-2.jpg?w=487\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:left\">(foto do filme &#8216;Paris Texas&#8217;, Wim Wenders. 1984)<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">H\u00e1 pelo menos duas formas, a cidade, o Estado. N\u00e3o est\u00e3o separados, mas funcionam de maneiras distintas. N\u00e3o existe cidade sozinha, o que ela faz \u00e9 criar uma horizontalidade comunicativa com outras cidades, uma produ\u00e7\u00e3o de fluxos que passam por outros pontos, um circuito de circuitos. O Estado cria com estes circuitos diferentes rela\u00e7\u00f5es e velocidades, capturas e liberdades relativas, que viabilizam seu pr\u00f3prio funcionamento. Uma forma atravessa a outra. H\u00e1 na cidade uma prepara\u00e7\u00e3o daquilo que s\u00f3 o Estado pode implementar, o capitalismo \u00e9 obra do estado, de sua forma e efetiva\u00e7\u00e3o<a title=\"\" href=\"#_edn1\">[1]<\/a>. Apesar de falar em formas e efetua\u00e7\u00f5es, cabe lembrar que \u00e9 poss\u00edvel fazer uma hist\u00f3ria destas formas, n\u00e3o se trata de uma simples adapta\u00e7\u00e3o a formas prontas desde sempre. Hoje, o Estado se apresenta como regulador do capitalismo e oferece uma transpar\u00eancia espec\u00edfica para o processo de reprodu\u00e7\u00e3o do capital, ou seja, a organiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea que permite esta reprodu\u00e7\u00e3o ultrapassar os Estados nacionais, formando novos conglomerados e organiza\u00e7\u00f5es internacionais descentralizadas e, podemos dizer, imperiais, mas ainda assim precisam de um poder que corrija as imperfei\u00e7\u00f5es sociais que atrapalhariam o bom funcionamento do mercado. As din\u00e2micas e rela\u00e7\u00f5es das cidades tamb\u00e9m foram alteradas.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Seguindo o rastro de um circuito aberto que preza pela inclus\u00e3o das diversas formas de produzir vida, poderemos acessar a diversifica\u00e7\u00e3o da nova cidade, a m\u00e1quina-cidade. A cidade hoje \u00e9 um funcionamento em rede. As localiza\u00e7\u00f5es e fronteiras s\u00e3o cada vez menos importantes na apreens\u00e3o de um poss\u00edvel significado que diga onde estamos, \u2018Paris Texas\u2019 ou Rio de Janeiro, ou mesmo quem somos, cariocas, baianos, alem\u00e3es\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Toda cidade \u00e9 uma modula\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o do mercado capitalista mundial, o que nos livra de uma completa homogeneiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre mercado interno e mercado externo, o local que uma cidade espec\u00edfica ocupa dentro do mercado mundial, <b>mas sobretudo as din\u00e2micas potentes do trabalho vivo, as formas de coopera\u00e7\u00e3o entre as singularidades insurgentes que viabiliza as lutas das multid\u00f5es<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Territ\u00f3rio descentralizado, empresa subjetiva, n\u00facleo desregionalizado, o processo de atualiza\u00e7\u00e3o permanente e imanente do capitalismo nos deixou um espa\u00e7o que guarda poucas rela\u00e7\u00f5es com a antiga cidade. O que era uma regi\u00e3o que atualizava todo seu entorno cultural, agora passa a fazer parte de uma libera\u00e7\u00e3o controlada de fluxos que recortam suas rela\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, ao mesmo tempo que lhe imp\u00f5e uma horizontalidade sem fronteiras e uma abertura a rela\u00e7\u00f5es com uma grande quantidade de outras cidades. Processo que se vale de uma popula\u00e7\u00e3o plural para criar pontes internas e manter rela\u00e7\u00f5es comerciais com outras tantos n\u00facleos descentralizados, ou seja, outras tantas cidades. Nesse sentido, na hora de compor pol\u00edticas publicas ou de pensar a racionalidade que vigora na sua cidade, a metr\u00f3pole de um outro pa\u00eds pode ser muito mais importante do que a regi\u00e3o metropolitana de onde voc\u00ea mora. Mas nesta mesma cidade, aparecem um conjunto infindo de pequenos mas fundamentais investimentos sociais que antagonizam com viol\u00eancia e criatividade contra a nova realidade produtiva e suas m\u00e1quinas de coopta\u00e7\u00e3o. Esse conjunto se vale das novas caracter\u00edsticas da cidade para sua melhor atua\u00e7\u00e3o. Podemos citar, a perda do dualismo centro-periferia que tende para uma maior import\u00e2ncia real da produ\u00e7\u00e3o da periferia como forma de produ\u00e7\u00e3o subjetiva conflitante. Uma maior dissemina\u00e7\u00e3o de redes de solidariedades que criam e distribuem saberes e uma coopera\u00e7\u00e3o que permite a renova\u00e7\u00e3o legitima, popular e m\u00faltipla destes saberes. Enfim, a cidade hoje se apresenta como espa\u00e7o de luta, onde a produ\u00e7\u00e3o subjetiva, que \u00e9 majorit\u00e1ria, ao mesmo tempo que apresenta modalidades renovadas de inven\u00e7\u00e3o de sujeitos, refor\u00e7a e dissemina formas de controle cada vez mais minuciosos.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Por vivemos j\u00e1 h\u00e1 algum tempo o chamado p\u00f3s-fordismo<a title=\"\" href=\"#_edn2\">[2]<\/a>, podemos ver mais claramente os avan\u00e7os e retrocessos dentro deste paradigma. Como um bom exemplo da complexidade p\u00f3s-fordista podemos falar do forte incentivo que o governo federal desenvolveu para a compra de carros. Este exemplo \u00e9 complexo por que ao mesmo tempo em que recorre a um produto caracter\u00edstico de um outro momento hist\u00f3rico, um outro modo de vida, ele efetua meios p\u00f3s-fordistas para sua dissemina\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o, ou seja, se vale das modula\u00e7\u00f5es subjetivas e comunicativas para a venda, e das flexibiliza\u00e7\u00f5es no emprego para o aumento da produtividade. O que indica que nesta nova cidade existe a conviv\u00eancia entre meio disciplinares e meios de controles, tratemos melhor disso.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Usando ainda este exemplo, vamos tentar deixar claro a distin\u00e7\u00e3o da cidade atual para as cidades de modo de produ\u00e7\u00e3o fordista. Como o nome j\u00e1 diz, o Fordismo \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o a partir da disciplina desenvolvida numa f\u00e1brica de carro, a Ford. Esta disciplina era tamb\u00e9m uma pol\u00edtica econ\u00f4mica, pois fomentou o pagamento de sal\u00e1rios para os funcion\u00e1rios, viabilizando a compra dos primeiros carros populares. Se na f\u00e1brica o trabalhador era alienado, separado do produto, despeda\u00e7ado do processo de trabalho, fora da f\u00e1brica ele recebia uma demanda social exterior. Um bom trabalhador necessariamente tem um carro, \u00e9 um sinal de status e faz a economia crescer, o desejo majorit\u00e1rio do m\u00e9todo. Assim, vemos o desdobrar de uma pol\u00edtica que passa inalterada por diversos governos, sempre recebendo a dose correta de moralismo para que continue funcionado (a velha ideia de que \u2018o trabalho enobrece o homem\u2019, \u2018ser um homem de sucesso\u2019 etc). <b>Desta \u00e9poca temos uma organiza\u00e7\u00e3o das cidades que, entre outras coisas, leva em conta a entrada maci\u00e7a de carros e a necessidade de tornar poss\u00edvel sua mobilidade. Abrimos um par\u00eanteses aqui para lembrar que foi justamente a quest\u00e3o da mobilidade que fez com que as manifesta\u00e7\u00f5es de junho se massificassem.<\/b> \u00c9 fundamental afirmar que o transporte urbano no Rio de Janeiro n\u00e3o funciona mal<a title=\"\" href=\"#_edn3\">[3]<\/a>, ele funciona exatamente como deve, travando as mobiliza\u00e7\u00f5es do pobres e sua tentativa constante de composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e est\u00e9tica. Os transportes coletivos ajustam-deformam os corpos em formas sociais subservientes e paralisadas.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Hoje, compondo com a pol\u00edtica de mobiliza\u00e7\u00e3o das cidades, o que temos \u00e9 uma rede estendida por pontos singulares, que se comunica\u00e7\u00e3o e criam diversos tipos de rela\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es sociais. Como exemplo disso podemos citar o processo de migra\u00e7\u00e3o. Ele transformou o mundo, o \u2018terceiro mundo\u2019 est\u00e1 no meio do \u2018primeiro mundo\u2019<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Mais do que um espa\u00e7o organizado por diversas formas de disciplinas, o que temos hoje nas cidades \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o complexa mas autoreferente, onde o social j\u00e1 \u00e9 o pr\u00f3prio investimento do mercado, pois se trata da coordena\u00e7\u00e3o da uma \u2018popula\u00e7\u00e3o flutuante\u2019,\u00a0 para usar o termo foucaultiano. O que deixa claro que nas cidades existem estados imperiais (as imposi\u00e7\u00f5es da FIFA), capitalismo mafioso (a rela\u00e7\u00e3o entre estado e mil\u00edcia), industrias criativas (a pol\u00edtica implementada pela Sec municipal de Cultura), din\u00e2micas de escravid\u00e3o (hiper-precariza\u00e7\u00e3o do trabalho) e v\u00e1rios pequenos grupos que fogem por todos os lados, ou seja, uma complexidade de modelos e for\u00e7as livres que fazem vibrar um tecido nervoso e pujante, cheio de possibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\"><b>A afirma\u00e7\u00e3o desta nova organiza\u00e7\u00e3o produtiva \u00e9 conquista, inven\u00e7\u00e3o, captura e luta.<\/b> Nessa ordem. Tentaremos demonstrar como chegamos a esta imagem da nova organiza\u00e7\u00e3o trabalhista e social da cidade e como, em ultima an\u00e1lise, ela nos mostra o desdobramento de uma pr\u00e1xis ontol\u00f3gica<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Come\u00e7aremos pensando as mudan\u00e7as nas pol\u00edticas estatais. Como deixa claro Foucault, em <i>O Nascimento da Biopol\u00edtica<\/i>, o pensamento sobre a gest\u00e3o de pol\u00edticas sociais, o que ele chama de \u2018refunda\u00e7\u00e3o social\u2019, foi implementado como resposta \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o de 1917. O pensamento pol\u00edtico que faz este arranjo \u00e9 o neoliberalismo. Trata-se de uma forma de governo que abarca toda a sociedade em sua espessura biol\u00f3gica e subjetiva &#8211; produtiva, portanto -, modulando e regulando, curando e formalizando condutas. <b>A popula\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como fonte constante de capital.<\/b> Mais uma vez n\u00e3o se trata de enxergar o trabalho sob o ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o, agora ele \u00e9 visto como renda, ou seja, reprodu\u00e7\u00e3o hiper abstrata e intermin\u00e1vel de capital. <b>O trabalhador\u00a0 n\u00e3o \u00e9 visto como for\u00e7a alienada, ele recebe uma positividade, mas esta positividade s\u00f3 existe submetida \u00e0 constante cria\u00e7\u00e3o de renda.<\/b> O trabalhador \u00e9 possibilidade de capital, por que \u00e9 possibilidade de sal\u00e1rio, de circula\u00e7\u00e3o e abastecimento e recria\u00e7\u00e3o da economia, mas para ser esta possibilidade ele se formaliza na dualidade m\u00e1quina-compet\u00eancia, esta \u00e9 toda positividade que ele ganha. Ele \u00e9 capaz de exercer certas atividades e n\u00e3o s\u00f3 de desempenhar um trabalho repetitivo. Estas atividades s\u00e3o atividades imateriais, s\u00e3o elas que d\u00e3o valor aos produtos, materiais ou n\u00e3o. Temos portanto uma nova forma\u00e7\u00e3o dos meios produtivos e reprodutivos. O homem desejado e formulado pelo capitalismo n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo, e isso \u00e9 sinal de que o pr\u00f3prio capitalismo n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. O trabalhador agora gera o produto e cria seu valor imaterial, por isso tem de ser constantemente regulado, limitado. O trabalho \u00e9 decomposto em capital e renda e analisado a partir deles. Por isso as formaliza\u00e7\u00f5es sociais, a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e da produ\u00e7\u00e3o, s\u00e3o forjadas a partir desse princ\u00edpio imanente gerador de um modelo universal de sujeitos livres para reproduzir capital.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\"><b>V\u00e1rias s\u00e3o as pot\u00eancias descentralizadas que tentam se valer desta nova configura\u00e7\u00e3o social para inventar outras formas de sociabilidade. Essas pot\u00eancias de luta e inven\u00e7\u00e3o sabem que o novo momento n\u00e3o \u00e9 de nostalgia, ele \u00e9 sinal de conquistas anteriores que permitiram uma maior flexibiliza\u00e7\u00e3o das disciplinas.<\/b> Mas sabem tamb\u00e9m, e muitas vezes sentem na pele as tentativa de controlar as rela\u00e7\u00f5es singulares e sua produ\u00e7\u00e3o excedente que foge dos limites imposto e visa destruir a separa\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e consumo, entre produ\u00e7\u00e3o e auto gest\u00e3o. <b>Al\u00e9m do modo de organiza\u00e7\u00e3o dos transportes coletivos, um outro exemplo desta violenta tentativa de controle \u00e9 o uso da pol\u00edcia como forma de guerra constante para inibir o desdobramento da coopera\u00e7\u00e3o entre as diversas multiplicidades que produzem o urbano. Um exemplo obvio disso s\u00e3o as UPPs<\/b>, mas falaremos especificamente dela um pouco mais a frente. Agora, retomando Foucault, lembramos que uma das caracter\u00edsticas do neoliberalismo \u00e9 cria\u00e7\u00e3o de uma aparente dicotomia entre as pol\u00edticas sociais e as pol\u00edticas econ\u00f3micas. Uma n\u00e3o deve interferir na outra, mas isso somente na medida em que uma \u00e9 submetida \u00e0 outra, e n\u00f3s j\u00e1 imaginamos quem serve a quem. No neoliberalismo, ainda segundo Foucault, as pol\u00edticas sociais s\u00e3o vistas como necess\u00e1rias para a manuten\u00e7\u00e3o do jogo econ\u00f4mico. Cabe ao estado impedir que esse jogo seja interrompido, \u00e9 preciso que, por exemplo, projetos sociais forne\u00e7am uma renda m\u00ednima para os participantes que n\u00e3o conseguem conquistar esta renda por eles mesmo, ou seja, a pol\u00edtica social \u00e9 que serve ao bom funcionamento da economia. N\u00e3o h\u00e1 nenhum interesse em destruir as causas da pobreza, ao contr\u00e1rio, ela \u00e9 \u00fatil, j\u00e1 que se tratar\u00e1 sempre de um jogo desigual, de um \u2018governo das desigualdades\u2019, onde a pobreza ocupar\u00e1 um espa\u00e7o fundamental, cito Foucault:<\/p>\n<p style=\"text-align:left\"><b><i>\u2018<\/i><\/b><b><i>uma verdadeira politica social devia ser tal que, sem tocar em nada do jogo econ\u00f4mico e deixando, por conseguinte, a sociedade se desenvolver como uma sociedade empresarial, instaurar-se-ia um certo n\u00famero de mecanismos de interven\u00e7\u00e3o para assistir os que deles necessitam naquele momento, e somente naquele momento em que deles necessitam.\u2019<\/i><\/b><b> (Michel Foucault, O Nascimento da Biopol\u00edtica p\u00e1g 285)5<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:left\">As diversas din\u00e2micas das UPPs, militariza\u00e7\u00e3o e controle cultural das comunidades, dissemina\u00e7\u00e3o de uma racionalidade de governo do outro, onde todos s\u00e3o poss\u00edveis policiais, reprodutores ou condutores de modula\u00e7\u00f5es submissas, e por fim, <b>o incentivo \u00e0 entrada na economia pela rela\u00e7\u00e3o com o poder p\u00fablico e inciativa privada que tem como objetivo repetir formaliza\u00e7\u00f5es do capitalismo, demonstram como ela se encaixa nesta forma de pol\u00edtica social que se submete \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica<\/b> (sem deixar de, quando necess\u00e1rio, fazer o jogo do \u2018capitalismo mafioso\u2019, que geralmente aparece neste espa\u00e7os pelas m\u00e3os de um agente do estado). Enfim, visualizamos uma parte consider\u00e1vel deste embate que acontece nas cidades, principalmente sob um enfoque das a\u00e7\u00f5es do poder. Falaremos agora sobre exemplos concretos e radicais onde a coopera\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da nova din\u00e2mica das cidades foi fundamental para o bom desenvolvimento de uma luta pela gera\u00e7\u00e3o livre do urbano.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Desde de 2011 houve no Rio de Janeiro uma intensifica\u00e7\u00e3o do processo de ocupa\u00e7\u00f5es e assembleias populares em v\u00e1rias partes da cidade. As ocupa\u00e7\u00f5es populares do Movimento Sem Teto e as lutas contra as remo\u00e7\u00f5es datam de um momento anterior e se configuram como alguns dos processos de lutas materiais mais importantes dos \u00faltimos tempos, criando o desejo pela produ\u00e7\u00e3o de mais direitos concretos na cidade. As ocupa\u00e7\u00f5es que aconteceram a partir de 2011 funcionam de outra maneira, ainda que em v\u00e1rios momentos os desejos consigam se comunicar e caminhar juntos. Ocupa\u00e7\u00f5es art\u00edstica, Ocupa Rio, Ocupa alem\u00e3o (que \u00e9 um pouco mais recente, mas parece participar do mesmo princ\u00edpio imanente dos outros ocupas) e agora o Ocupa C\u00e2mara s\u00e3o pr\u00e1ticas pol\u00edticas que, seguindo um certo horizonte te\u00f3rico-pol\u00edtico do p\u00f3s 68, <b>afirmam uma imbrica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre o que se diz e o que \u00e9 feito, organiza\u00e7\u00e3o e desejo se entrela\u00e7am concretamente<\/b>. Nestes movimentos, ressurge uma \u00e9tica comprometida com uma sociabilidade pol\u00edtica, experimental e m\u00faltipla. Trata-se de vivenciar radicalmente o que \u00e9 proposto e, no mesmo movimento, abrir esta proposi\u00e7\u00e3o para o maior n\u00famero poss\u00edvel de singularidades, afirmando o desejo de uma outra organiza\u00e7\u00e3o social. \u00c9 neste sentido que um dos participantes do Ocupa C\u00e2mara diz que as ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u2018verdadeiras usinas de produ\u00e7\u00e3o\u2019<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">As ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es que fogem e fazem a m\u00e1quina capitalista roer, por que produzem uma outra urbanidade, outra forma de atua\u00e7\u00e3o e de \u2018uso\u2019 da cidade. As ocupa\u00e7\u00f5es produzem aulas, debates, assembleias constituintes e se apresentam como a possibilidade concreta de supera\u00e7\u00e3o das assembleias legislativas e c\u00e2maras municipais com suas pol\u00edticas representativas que n\u00e3o representam ningu\u00e9m al\u00e9m dos interesses dos pr\u00f3prios pol\u00edticos profissionais. <b>Acredito que estas outras formas que surgem e s\u00e3o experimentadas nas ocupa\u00e7\u00f5es s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis pela nova configura\u00e7\u00e3o social que temos hoje. A troca horizontal como solo fundamental de viv\u00eancia e cria\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es forjadas entre as modula\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas das ruas e das redes.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Outro exemplo multitudin\u00e1rio de ocupar e produzir o urbano \u00e9 o das assembleias populares. <b>Diferente das ocupa\u00e7\u00f5es, as assembleias tem o desejo de gestar novas formas sociais a m\u00e9dio e longo prazo, sem requerer dos participantes uma viv\u00eancia t\u00e3o radical quanto os ocupas.<\/b> Ao mesmo tempo participam de diversas formas de cria\u00e7\u00e3o e desdobramento das manifesta\u00e7\u00f5es. Uma das tentativas das assembleias \u00e9 de compor as pautas concretas que \u00e0s vezes aparecem disseminada pelas manifesta\u00e7\u00f5es. Muitas assembleias populares nasceram das ruas, do movimento dos manifestantes tentando articular maneiras concretas de efetuar os desejos revolucion\u00e1rios. \u00c9 importante lembrar das lutas e ocupa\u00e7\u00f5es anteriores a junho, tanto o Ocupa Rio quanto as ocupa\u00e7\u00e3o do sem-teto, porque assim criamos uma imagem mais adequada e extensa da for\u00e7a que a rua vem mostrando, ou seja, <b>esse processo de luta que explodiu em junho \u00e9 sinal de um ac\u00famulo de outras tantas lutas e inven\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas, m\u00faltiplas e multiplicadoras.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Um \u00faltimo exemplo de composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (monstruosa) na e da cidade que n\u00e3o pode ser esquecido \u00e9 a recente jun\u00e7\u00e3o, agora quase formal, entre os Black Bloc e os professores.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">O que acompanhamos na Cinel\u00e2ndia e no seu entorno n\u00e3o foi s\u00f3 um massacre contra os professores e a popula\u00e7\u00e3o que lhe apoia, articulado entre os poderes constitu\u00eddos, a m\u00eddia da elite econ\u00f4mica e cultural e a complac\u00eancia de quem s\u00f3 reage de maneira subserviente. <b>Estamos acompanhando \u00e9 a feitura, ainda fr\u00e1gil, de uma linha tra\u00e7ando e ligando grupos que at\u00e9 bem pouco tempo estavam distantes, para dizer o m\u00ednimo. Quando as greves dos profissionais de educa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou, boa parte deles se posicionaram contra os Black Bloc, repetindo o j\u00e1 envelhecido julgamento e a condena\u00e7\u00e3o da m\u00eddia tradicional. At\u00e9 mesmo o SEPE declarou apoio aos Black Bloc e disse que eles ser\u00e3o bem vindos<sup>7<\/sup>.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Esta linha de dispers\u00e3o, fr\u00e1gil mas cortante, \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u2018linha de fuga\u20198. Uma fuga ativa, pura perman\u00eancia em um processo de resist\u00eancia e inven\u00e7\u00e3o. Resist\u00eancia por que j\u00e1 n\u00e3o se locomove mais atrav\u00e9s de antigas categorias e institui\u00e7\u00f5es apropriadas pelo poder. Inven\u00e7\u00e3o por que dentro das condi\u00e7\u00f5es materiais sabe compor novos corpos que for\u00e7am outras temporalidades. Nesta \u00e9tica experimental que constitui a forma\u00e7\u00e3o das multiplicidades cooperantes chega um momento de conjun\u00e7\u00e3o em que aquilo que \u00e9 destrutivo para a continuidade constituinte \u00e9 combatido, confrontado. N\u00e3o \u00e9 posto para fora porque n\u00e3o h\u00e1 um fora (no sentido de exclus\u00e3o) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual as multiplicidades se posicionam, mas h\u00e1 uma estrat\u00e9gia de n\u00e3o uso de elementos que visam enfraquecer a pot\u00eancia das multiplicidades. <b>Sem d\u00favida alguma os arcaicos \u2018aparelhos de captura\u2019 v\u00e3o continuar funcionando, a for\u00e7a repressiva da pol\u00edcia militar, as institui\u00e7\u00f5es da democracia representativa e mesmo os sindicatos v\u00e3o tentar desestabilizar o desenvolvimento das multiplicidades.<\/b> Chamamos aten\u00e7\u00e3o para este fato por que o mais f\u00e1cil \u00e9 dizer que 68 n\u00e3o aconteceu, o dif\u00edcil \u00e9 ter em mente que o PC franc\u00eas e boa parte dos sindicatos, por exemplo, foram respons\u00e1veis por n\u00e3o ter acontecido como poderia.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">A dispers\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel e, cada dia mais, confirmada por diversas partes. Vemos como exemplo fundamental disso o posicionamento p\u00fablico de v\u00e1rios professores apoiando e querendo construir em conjunto com os praticantes da t\u00e1tica Black Bloc. Portanto, o in\u00edcio e desenvolvimento deste encontro monstruoso, e de tantos outros, \u00e9 o sinal mais evidente de que uma \u2018linha de fuga\u2019 faz fugir todo aquele sistema do qual se foge. Os professores saem dos seus postos hierarquizados, dentro ou fora dos sindicatos, e aceitam dialogar diretamente com quem est\u00e1 nas ruas lhe apoiando, e este di\u00e1logo n\u00e3o se d\u00e1 s\u00f3 sobre a manifesta\u00e7\u00e3o mas desde j\u00e1 sobre uma poss\u00edvel outra educa\u00e7\u00e3o. <strong>Houve contamina\u00e7\u00e3o, e a t\u00e1tica Black Bloc em sua forma e for\u00e7a, ou seja, afeto que \u00e9 imediatamente coletivo e pol\u00edtico, se tornou pe\u00e7a fundamental desta outra educa\u00e7\u00e3o.<\/strong>\u00a0<strong>A t\u00e1tica black bloc, que era vista, mesmo entre os manifestantes, como uma negatividade necess\u00e1ria agora consegue expor toda sua positividade produtiva e excede o puro confronto para participar da cria\u00e7\u00e3o de um poss\u00edvel radicalmente novo, uma educa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria a partir do encontro nas ruas. Eis o que pode gerar o encontros entre \u2018linhas de fuga\u2019.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:left\">Enfim, estamos fazendo este percurso \u00e1rduo mas fundamental, entre uma recusa total ao estado de coisas atuais e a cria\u00e7\u00e3o coletiva de poss\u00edveis impensados, e isso n\u00e3o nos deixa outra alternativa al\u00e9m de nos lan\u00e7armos nesta\u00a0<b>experimenta\u00e7\u00e3o temporal onde a \u00fanica perda ser\u00e1 da imposi\u00e7\u00e3o do presente<\/b>. Experimenta\u00e7\u00e3o onde a produ\u00e7\u00e3o do eterno acena mais uma vez.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\">O que vir\u00e1 n\u00e3o deixar\u00e1 de ter em alguma medida a participa\u00e7\u00e3o criativa da multid\u00e3o, trata-se ent\u00e3o de fazer com que esta participa\u00e7\u00e3o seja a mais potente e imanente poss\u00edvel, ou seja, seja produto da e para a multid\u00e3o. Afirmando isto podemos voltar e reencontrar em toda sua potencia a hip\u00f3tese que t\u00ednhamos lan\u00e7ado no in\u00edcio do texto, demonstramos como aquele excesso de produ\u00e7\u00e3o se transforma em pr\u00e1xis ontol\u00f3gica, pois produzir uma nova temporalidade \u00e9 produzir diferen\u00e7a, \u00e9 criar um tempo outro fora dos eixos e das possibilidades dadas, produzir al\u00e9m do controle dos fluxos \u00e9, enfim, produzir ser.<\/p>\n<p style=\"text-align:left\"><b>Por Ricardo Gomes \u2013 Coletivo Das Lutas<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:left\"><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref1\">[1]<\/a> Gilles Deleuze, Mil Plat\u00f4s vol 5<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>[2] \u00a0<i>Giuseppe Cocco, <\/i><i>Trabalho e cidadania<\/i><i>: produ\u00e7\u00e3o de direitos na crise do capitalismo global. 3a ed. (ampliada). S\u00e3o Paulo: 2012<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>[3] Como j\u00e1 disse o <i>Bruno Cava, http:\/\/www.quadradodosloucos.com.br\/3796\/o-sistema-de-transporte-e-mais-violento-do-que-a-policia\/<\/i>)<\/p>\n<p><sup>4 <\/sup>Mais uma vez, <i>Giuseppe Cocco, <\/i><i>Trabalho e cidadania<\/i><i>: produ\u00e7\u00e3o de direitos na crise do capitalismo global. 3a ed. (ampliada). S\u00e3o Paulo: 2012<\/i><\/p>\n<p>5 \u00c9 importante ressaltar que nem todos os projetos sociais de transfer\u00eancia de renda tem a mesma din\u00e2mica, o pr\u00f3prio Foucault faz essa distin\u00e7\u00e3o no mesmo livro. Acredito que o Bolsa Fam\u00edlia tem alguns aspectos que permitem pensar uma outra forma de executar os projetos sociais. Aponto como exemplo desta diferen\u00e7a a quase total falta de condicionalidades para receber o benef\u00edcio, por\u00e9m paramos por aqui pois este texto n\u00e3o \u00e9 o lugar mais adequado para esta discuss\u00e3o. Ela toma seus devidos desdobramentos neste outro texto: <a href=\"http:\/\/pegarosolcomamao.wordpress.com\/2013\/08\/25\/para-alem-da-queda-i\/\">http:\/\/pegarosolcomamao.wordpress.com\/2013\/08\/25\/para-alem-da-queda-i\/<\/a>).<\/p>\n<p>6 Rodrigo Modenesi, Ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o usinas produtivas, <a href=\"http:\/\/uninomade.net\/tenda\/ocupacoes-sao-usinas-produtivas\/\">http:\/\/uninomade.net\/tenda\/ocupacoes-sao-usinas-produtivas\/<\/a><\/p>\n<p><sup>7<\/sup> http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/26240<\/p>\n<p>8 O conceito \u201clinha de fuga\u201d surge na parceria entre o fil\u00f3sofo Gilles Deleuze e o psicanalista Feliz Guattari, especialmente a partir do livro Anti-\u00c9dipo (1972). Cito uma passagem:<\/p>\n<p><i>Do esquizo ao revolucion\u00e1rio vai s\u00f3 toda a diferen\u00e7a que h\u00e1 entre o que foge e aquele que sabe fazer fugir aquilo de que foge, rompendo um tubo imundo, fazendo passar um dil\u00favio, libertando um fluxo\u2026\u2019 (Anti-Edipo, pag 357).<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(foto do filme &#8216;Paris Texas&#8217;, Wim Wenders. 1984) H\u00e1 pelo menos duas formas, a cidade, o Estado. N\u00e3o est\u00e3o separados, mas funcionam de maneiras distintas. N\u00e3o existe cidade sozinha, o que ela faz \u00e9 criar uma horizontalidade comunicativa com outras cidades, uma produ\u00e7\u00e3o de fluxos que passam por outros pontos, um circuito de circuitos. 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