{"id":762,"date":"2013-12-18T17:51:04","date_gmt":"2013-12-18T20:51:04","guid":{"rendered":"http:\/\/daslutas.wordpress.com\/?p=762"},"modified":"2013-12-18T17:51:04","modified_gmt":"2013-12-18T20:51:04","slug":"a-morte-de-nelson-mandela-e-a-sobrevivencia-do-apartheid","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/?p=762","title":{"rendered":"A MORTE DE NELSON MANDELA E A SOBREVIV\u00caNCIA DO APARTHEID"},"content":{"rendered":"<p><!--[if gte mso 9]&gt;--><\/p>\n<p><!--[if gte mso 9]&gt;--><\/p>\n<p><!--[if gte mso 10]&gt;--><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt\"><span style=\"font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">* Por Irlim Corr\u00eaa Lima J\u00fanior \u2013 Mestrando em Filosofia pela PUC-Rio, poeta e membro da editora Confraria do Vento <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Nelson Mandela morreu, mas n\u00e3o o racismo. E muitos dos que acendem nesse instante uma vela em sua homenagem ainda velam em suas vidas para que essa forma de preconceito viva acesa.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Mas o que impede, pois, que a consagra\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos tenha repercuss\u00e3o nos encontros face a face, na vida encarnada e assumida no dia-a-dia? A suprassun\u00e7\u00e3o de um homem em s\u00edmbolo \u00e9 por demasi<span class=\"textexposedshow\">ado distante para levar as pessoas a refletirem sobre suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es e sobre o seguimento de suas vidas? Ou ser\u00e1 que o que se sobrep\u00f5e a Nelson Mandela, atrav\u00e9s de um discurso produzido e rotulado pela m\u00eddia de massa, seja o status e o t\u00edtulo do Nobel da Paz, um pr\u00eamio a personalidades do bem, seja qual for a causa? Isto \u00e9, a concep\u00e7\u00e3o de que um homem, na sua extraordinariedade, alcan\u00e7ou conformar-se ao arqu\u00e9tipo da paz, capaz de sobrepujar os conflitos acirrados intr\u00ednsecos \u00e0 natureza do homem enquanto lobo de si mesmo, gerando benef\u00edcios sociais alheios? N\u00e3o que tal seja inver\u00eddico, apenas que a poss\u00edvel verdade disso \u00e9 demasiada universal e abstrata para encontrar eco em reflex\u00f5es concretas para a vida.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span class=\"textexposedshow\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">E tendo em vista que n\u00f3s, enquanto homens medianos, podemos nos dar ao luxo de colocar esse tipo de homem extraordin\u00e1rio em seu devido pedestal, desobrigando-nos de nos tornarmos \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, j\u00e1 que se tratam essas personalidades muito mais de \u00eddolos que baixaram \u00e0 terra e nem tanto de pessoas de carne e osso. Ademais, mitigamos nossas poss\u00edveis dores de consci\u00eancia ao considerarmos o ideal de uma paz perp\u00e9tua como se fosse o mito de S\u00edsifo para toda a humanidade em todos os tempos, condi\u00e7\u00e3o que permitiria tamb\u00e9m a cada um arrefecer seus esfor\u00e7os pessoais, porquanto se trate sempre do absolutamente inalcan\u00e7\u00e1vel, sendo o mundo isso a\u00ed mesmo, ainda que vez ou outra nas\u00e7am um Mandela, uma Madre Teresa ou um Gandhi, que acenam com a possibilidade de vez ou outra contarmos com certos f\u00f4legos de esperan\u00e7a ou n\u00e3o total desesperan\u00e7a.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Ou ainda: talvez a associa\u00e7\u00e3o de sua luta contra o racismo e a desigualdade sejam subsumidas na luta contra o <i>apartheid<\/i>, acontecimento pr\u00f3prio da hist\u00f3ria recente sul-africana. Nesse sentido, a l\u00f3gica da injusti\u00e7a \u00e9 reificada e fetichizada num produto biossocial particular de um tempo e de um lugar (\u00c1frica do Sul, 1948-1994), produto que dessa l\u00f3gica se deriva, mas que com ela j\u00e1 n\u00e3o tem mais tanto a ver, a n\u00e3o ser como remota causa eficiente, um tanto at\u00e9 extr\u00ednseca.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:35.4pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Todavia, n\u00f3s brasileiros n\u00e3o vivemos isso, \u00e9 evidente. Isso \u00e9 coisa de m\u00e1culas distantes em nosso passado, tempo da escravid\u00e3o. N\u00f3s temos negros em tudo quanto \u00e9 canto hoje em dia. E lhes damos cotas. Dispensamo-nos de sermos toscos, rudes e b\u00e1rbaros em nossa lida social. Somos diplom\u00e1ticos e racionais, evitamos conflitos. A coer\u00e7\u00e3o social direta sob viol\u00eancia f\u00edsica (ao menos de forma explicitada e ratificada jur\u00eddica e institucionalmente) \u00e9 coisa do passado. Efetivamente, n\u00e3o h\u00e1 mais c\u00f3digos legislativos que punam negros por serem negros. Mas isso \u00e9 dispens\u00e1vel. N\u00f3s temos uma biopol\u00edtica, forma de controle e aparato de poder sofisticado e complexo o suficiente para que a desigualdade siga imperando, mas de forma t\u00e1cita, pac\u00edfica. N\u00f3s temos, por exemplo, uma mentalidade de meritocracia e uma economia de ac\u00famulo de capital capazes de esconder s\u00e9culos de opress\u00f5es e genoc\u00eddios e ocultar um presente de injusti\u00e7as, de expropria\u00e7\u00f5es e de oportunidades absolutamente desiguais. N\u00f3s temos formas de controle de viol\u00eancia e criminalidade, que propiciam, sob esp\u00e9cie de campos de concentra\u00e7\u00e3o biopol\u00edticos, o ac\u00famulo de condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas de possibilidade para a convers\u00e3o das desigualdades e injusti\u00e7as operacionalizadas pelas elites dirigentes em capitaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o criminal por parte daqueles que habitam esses campos. Isto faz ainda mais com que esses campos de concentra\u00e7\u00e3o acumulem criminalidade e sejam segregados da sociedade <i>standard<\/i>, ou, simplesmente, civilizada \u2013 o que significa coberta pelo Estado e id\u00f4nea para receber o afluxo monet\u00e1rio de investimento social e econ\u00f4mico. Assim, as favelas, por exemplo, se mostram como essas concentra\u00e7\u00f5es de pobreza, de car\u00eancia, de falta de oportunidades e de horizontes. Diante disso, a revers\u00e3o da insatisfa\u00e7\u00e3o completa de subjetividades em atividade de reapropria\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias potencialidades e das possibilidades de mercado que lhes s\u00e3o continuamente negadas, apelando para atividade criminal, era mais do que natural. Ali\u00e1s, isto se d\u00e1 de alguma forma planejada, por governos e corpora\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Mas e as UPPs n\u00e3o seriam iniciativas para interromper essa l\u00f3gica de segrega\u00e7\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o das favelas? Longe disso. \u00c9 verdade que as UPPs desarticularam <i>in loco<\/i> a rede de poder semiestatal que se apresentava como poder paralelo, que tinha no tr\u00e1fico de drogas e na distribui\u00e7\u00e3o de armas seu principal neg\u00f3cio. N\u00e3o que isso j\u00e1 n\u00e3o mais ocorra nesses locais; ocorre, mas como todo crime deve acontecer aos olhos do Estado: por debaixo dos panos e n\u00e3o se arrogando como seu duplo, com bandeiras e at\u00e9 com funks que soavam como hinos. As UPPs, ent\u00e3o, minaram o poder paralelo enquanto tal, isto \u00e9, como um poder que se apresenta como seu outro e em franca concorr\u00eancia. Mas a interven\u00e7\u00e3o do Estado nas favelas, por meio das UPPs, demonstra ainda a mesma l\u00f3gica de paralelidade e segrega\u00e7\u00e3o. A aflu\u00eancia de pessoas do asfalto e estrangeiros \u00e0s favelas n\u00e3o indica a integra\u00e7\u00e3o social da favela com o restante da sociedade. N\u00e3o, mas perpetua\u00e7\u00e3o da favela enquanto radical alteridade, como o ex\u00f3tico do qual por vezes queremos ter experi\u00eancias casuais e moment\u00e2neas, mas de forma alguma como aquilo a ser assumido integral e cotidianamente como modo de vida. Assim, onde quer que haja UPPs, criar-se-\u00e3o <i>hostels<\/i>, albergues, <i>resorts<\/i>, etc. Mas tamb\u00e9m resid\u00eancias de luxo, para quem seja mais afeito \u00e0 vida <i>hardcore<\/i>.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">E, no entanto, isso \u00e9 apenas a ponta do iceberg. A presen\u00e7a do Estado nas favelas \u00e9 impulsionada pelos interesses comerciais diretos ou indiretos ligados aos seus potenciais. As favelas da Zona Sul e do Centro s\u00e3o as que mais demonstram potencial financeiro direto, por conta de seu potencial tur\u00edstico e imobili\u00e1rio. As da Zona Norte, em geral, indireto: aumento da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria com a valoriza\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis nas \u00e1reas adjacentes.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">E a Zona Oeste? As da Barra e S\u00e3o Conrado evidentemente possuem tanto potencial direto quanto indireto. Como as de outros lugares, n\u00e3o, o Estado tender\u00e1 a protelar indeterminadamente ou para sempre essa ocupa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">A presen\u00e7a das UPPs leva, desta forma, o Estado \u00e0s favelas, mas n\u00e3o o contr\u00e1rio. A interven\u00e7\u00e3o estatal nas favelas est\u00e1 longe de contribuir para seu desenvolvimento social, pol\u00edtico e humano. Ao inv\u00e9s disso, promove, acima de tudo, o desenvolvimento econ\u00f4mico de consumo. De uma parte, o Estado, por meio das pol\u00edcias pacificadoras, planifica e controla os \u00edndices de viol\u00eancia, franqueando caminho para investimentos comerciais, tur\u00edsticos e imobili\u00e1rios advindos de grandes empres\u00e1rios, os quais necessitam de relativa seguran\u00e7a e condi\u00e7\u00f5es de rentabilidade para realizarem os investimentos. O desenvolvimento do com\u00e9rcio local vai tamb\u00e9m a reboque disso. De outra parte, o desenvolvimento humano das favelas \u00e9 da ordem daquilo que uma Dilma da vida prometeu na sua campanha de 2012: desenvolver brasileiros e brasileiras para que se tornem consumidores. As antigas promessas do bem-estar social e da constitui\u00e7\u00e3o brasileira, que implicam gastos sem retorno imediato financeiro de capital, s\u00e3o revertidas em potencial de consumo. Quem, por exemplo, tiver condi\u00e7\u00e3o de consumo de boa educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, que consuma, se desejar. Quem n\u00e3o, n\u00e3o. Por\u00e9m, isso \u00e9 secund\u00e1rio em nossa modernidade l\u00edquida marcada pelo consumismo irrefre\u00e1vel: o que importa s\u00e3o os bens de consumo em consuma\u00e7\u00e3o da perpetuidade de consumo ilimitado e meramente transit\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">A planifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia nas favelas pacificadas se d\u00e1, portanto, em conson\u00e2ncia com o processo de estratifica\u00e7\u00e3o social da classe C, em que o grosso do que um dia foi chamado de pobre agora adquiriu status de consumidor. Isso, sem sombra de d\u00favida, n\u00e3o abre caminhos para que um morador local estude em grandes escolas, nem sequer que se trate em hospitais de ponta. Mas permite, por outro lado, que possa comprar a prazo (longo, no mais das vezes) um <i>tablet<\/i>, um <i>smartphone<\/i> ou roupas de marca. Isso lhes permite, vez por outra, cantar funks que comparam a vida das pessoas na favela com as da Vieira Souto, porque aqui e l\u00e1 encontram-se produtos similares. Entretanto, a ilus\u00e3o de consumo cai por terra t\u00e3o logo tente um morador da favela ingressar no mercado de trabalho, entre outras coisas.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Em suma, no que consiste a pacifica\u00e7\u00e3o das favelas? Em primeiro lugar: o controle biossocial do Estado direto sobre esses campos de concentra\u00e7\u00e3o biopol\u00edticos. Isto se justifica pelo fluxo de capital direto ou indireto e pela potencializa\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o e consumo. E s\u00f3 se justifica onde quer que esse potencial seja real: a saber, nas favelas da Zona Sul, algumas da Zona Norte e na Barra e cercanias. Onde quer que esse potencial seja nulo ou n\u00e3o compense devido \u00e0 despropor\u00e7\u00e3o entre lucros visados e investimentos necess\u00e1rios, ali n\u00e3o ser\u00e3o instaladas. Para esses lugares h\u00e1 outras formas de controle. Al\u00e9m do poder instaurado pelas fac\u00e7\u00f5es do tr\u00e1fico, ligadas \u00e0s grandes redes supranacionais de produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio de drogas, com fortes liga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nos governos (vide certo helic\u00f3ptero apreendido com 450kg de coca\u00edna recentemente) e empresas, h\u00e1 tamb\u00e9m as mil\u00edcias. Tais s\u00e3o ainda mais de perto controladas pelo Estado: ali\u00e1s, podem ser pensadas como empresas terceirizadas que atuam sob a concess\u00e3o il\u00edcita do pr\u00f3prio Estado, l\u00e1 onde o poder estatal n\u00e3o poderia agir legalmente sem ter imensos preju\u00edzos financeiros. A necessidade desse bra\u00e7o n\u00e3o-estatal das mil\u00edcias ter de se gerir do crime \u00e9 absoluta, pois s\u00f3 isto \u00e9 capaz de lhe gerar por l\u00e1 lucratividade, e por extens\u00e3o cumprir a miss\u00e3o que lhe foi conferida pelo Estado de exercer vigil\u00e2ncia e controle social desses lugares. N\u00e3o \u00e0 toa as mil\u00edcias est\u00e3o presentes mais nas favelas da Zona Oeste, onde a interven\u00e7\u00e3o direta do Estado n\u00e3o v\u00ea raz\u00e3o para chegar.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Digredimos do tema a que nos propomos a refletir em primeiro lugar: a morte de Nelson Mandela e a dificuldade de se traduzir o seu significado para a compreens\u00e3o geral das pessoas, sem decair em pacifismos in\u00f3cuos e inocentes. Mas a digress\u00e3o aqui empreendida, que direcionou para uma breve reflex\u00e3o sobre as UPPs, no fundo quer p\u00f4r em evid\u00eancia que aquilo contra o que Mandiba lutava est\u00e1 diante de n\u00f3s mesmos: o <i>apartheid<\/i>. Como falamos, a biopol\u00edtica estatal e mercadol\u00f3gica prescindem de c\u00f3digos de leis para exercer o controle social, garantindo as desigualdades e injusti\u00e7as necess\u00e1rias para a obten\u00e7\u00e3o de mais-valia e lucro. Nosso <i>apartheid<\/i> \u00e9, em certo sentido, n\u00e3o institucional, posto que n\u00e3o escrito, mas nem por isso menos real.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">\u00c9 \u00f3bvio que a l\u00f3gica do racismo atual no Brasil n\u00e3o \u00e9 o mesmo da \u00c1frica do Sul no s\u00e9culo XX. N\u00f3s temos leis contra o racismo. Contudo, nosso racismo adv\u00e9m de leis n\u00e3o escritas, presentes nas rela\u00e7\u00f5es sociais e de poder, consistindo substancialmente em c\u00f3digos sem signos, mas n\u00e3o menos vigentes. E \u00e9 claro que h\u00e1 diferen\u00e7as de outras ordens, mas isso exigiria uma an\u00e1lise dos fen\u00f4menos do racismo aqui e acol\u00e1, o que n\u00e3o intentamos nesse momento.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:35.4pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Mas h\u00e1 leis contra o racismo. De fato, por\u00e9m, o Brasil nunca foi l\u00e1 muito bom em termos de cumprir as leis. Assim, nosso racismo, na maior parte das vezes se manifesta mesmo com um jeitinho brasileiro, sempre cordial e simp\u00e1tico, sonso e hip\u00f3crita. Posta-se uma foto do Nelson Mandela nas redes sociais, sempre tem-se um amigo ou conhecido negro, caso se tornasse uma estrela de Hollywood adotaria cinco crian\u00e7as do Congo, etc. Sim, porque naturalmente admitem-se negros na paisagem de seu apartamento de frente para a praia na Zona Sul; admitem-se fotos de negros famosos no <i>Facebook<\/i>, no <i>Twitter<\/i> ou no <i>Instagram<\/i>; admitem-se negros no mundo das ideias do seu projeto de vida caso um acaso da vida fizesse dessa pessoa um bilion\u00e1rio filantropo sem ter mais o que fazer; admitem-se que negros no STF e na capa da Veja, inclusive sem cotas. Mas n\u00e3o se admitem negros em shoppings? Ou ser\u00e1 que \u00e9 um problema local, s\u00f3 de uma cidade como Vit\u00f3ria?<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">A come\u00e7ar por nossos pr\u00f3prios amigos, que costumam ser pessoas de bem e civilizadas, muitos deles aplaudiriam os atos da pol\u00edcia nesse shopping ou a\u00e7\u00f5es semelhantes, como muitos \u201chomens de bem\u201d e que pagam seus impostos fizeram. Muitos dos nossos amigos querem ver a massa da popula\u00e7\u00e3o negra restrita \u00e0s favelas. Querem absoluta dist\u00e2ncia deles e apoiam as UPPs sem restri\u00e7\u00e3o alguma, inclusive com eventuais sumi\u00e7os de Amarildos, o que por vezes \u00e9 normal, j\u00e1 que tanta gente sumia com o tr\u00e1fico, por que n\u00e3o sumir com uns gatos pingados? E acham perfeitamente normais as remo\u00e7\u00f5es feitas para a Copa e para as Olimp\u00edadas. E os mesmos postam foto do Mandela, com cita\u00e7\u00f5es apaixonadas contra o <i>apartheid<\/i> l\u00e1 de longe, mas apartadas da realidade que lhe est\u00e1 mais pr\u00f3xima.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Mas a m\u00eddia n\u00e3o faz o mesmo? Sim; contudo, n\u00e3o os equiparamos. A m\u00eddia sabe a quem defende, sabe aproveitar-se dos s\u00edmbolos, reapropri\u00e1-los, convert\u00ea-los, capitaliz\u00e1-los, deslocando-os do seu sentido mais radical e origin\u00e1rio, transformando Mandela em um Nobel da Paz e em luta contra um tal de <i>apartheid<\/i> long\u00ednquo, sem fazer refer\u00eancia cr\u00edtica \u00e0 l\u00f3gica essencial e estrutural, preconceituosa e explorat\u00f3ria, \u00e0 qual est\u00e1 subordinado e que em terras brasileiras tamb\u00e9m viceja, mas sob outros modos. A m\u00eddia transforma em not\u00edcia, em informa\u00e7\u00e3o vend\u00e1vel, em circula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria de ideologia, mas desarticulada do seu real valor revolucion\u00e1rio e reflexivo, sem poder de transforma\u00e7\u00e3o do <i>status quo<\/i> social que interessa \u00e0queles que det\u00eam o poder e o capital. Ou seja, em produto a ser consumido e replicado segundo a l\u00f3gica do mesmo, mas n\u00e3o refletido e vivido em vias de transforma\u00e7\u00e3o contestadora.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Mas e os amigos do <i>Facebook<\/i>, que n\u00e3o ganham nem um centavo com isso e que n\u00e3o parecem ser maliciosos ou astuciosos o suficiente para serem hip\u00f3critas? Qual \u00e9 a dificuldade que se lhes apresenta em n\u00e3o perceberem que aquilo que veiculam apaixonadamente tem a ver consigo mesmos? Que o Nelson Mandela tem a ver com o Amarildo, com o shopping de Vit\u00f3ria, com o preconceito de cada dia? E que o <i>apartheid<\/i> tem a ver com as pol\u00edticas p\u00fablicas, com as UPPs, com as remo\u00e7\u00f5es, com os interesses de mercado, com os projetos das cidades, com as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, com o espa\u00e7o-tempo em que cada um est\u00e1 inserido?<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">Voltando \u00e0 quest\u00e3o: qual \u00e9 o entrave para que as ideias ganhem vida? A ignor\u00e2ncia j\u00e1 n\u00e3o mais parece dar conta dessa resposta no tempo da informa\u00e7\u00e3o, quando os que mais compartilham as informa\u00e7\u00f5es se mostram ami\u00fade os menos aptos a refletirem sobre as mesmas. Aliena\u00e7\u00e3o? Mas qual \u00e9 a s\u00edntese a que n\u00e3o se chega e qual a dial\u00e9tica capaz de unificar informa\u00e7\u00e3o e vida? Indiferen\u00e7a? Mas por que a paix\u00e3o pelos s\u00edmbolos e pelas ideias, incapazes, todavia, de serem revertidos em mudan\u00e7a de vis\u00e3o de mundo e experi\u00eancias cotidianas? No que se arraigam as subjetividades que replicam s\u00edmbolos e ideologias sem refletirem acerca do seu real significado e motivador questionamento? Ser\u00e1 que o consumo repetitivo de informa\u00e7\u00e3o conduz necessariamente ao embotamento da capacidade de pensar e da subsequente leitura cr\u00edtica da realidade? Estar\u00e3o os preconceitos t\u00e3o enraizados no inconsciente e sublimados nos comportamentos a ponto de permanecerem praticamente intang\u00edveis \u00e0 menor possibilidade de serem repensados, mesmo quando informa\u00e7\u00f5es que o questionam sobrevoam a consci\u00eancia dos que as compartilham?<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-bottom:6pt;text-indent:42.55pt\"><span style=\"font-size:12pt;line-height:150%;font-family:'Times New Roman', 'serif';color:#37404e;background:white\">\u00c0 sombra desse falta de respostas e perplexidade, Nelson Mandela, transformado em informa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e curti\u00e7\u00e3o desenfreada, vive morrendo ao ser alienado das lutas e resist\u00eancias que travou durante a sua vida. O Nobel da Paz n\u00e3o foi sen\u00e3o o reconhecimento do objetivo final que sempre foi o pressuposto essencial de sua atua\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, a paz a ser alcan\u00e7ada. Mas tamb\u00e9m a meta pressup\u00f5e toda a luta, pois sem esta jamais poderia ser vislumbrada e alcan\u00e7ada. Por seu turno, o <i>apartheid<\/i>, embora segundo sua configura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica determinada possa ter morrido, sua l\u00f3gica imanente e universal continuamente ressuscita, sempre multifariamente, e cada vez mais sutil e complexa, menos dependente dos valores culturais (n\u00e3o obstante os incorpore) do que da estrutura biopol\u00edtica do sistema.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Por Irlim Corr\u00eaa Lima J\u00fanior \u2013 Mestrando em Filosofia pela PUC-Rio, poeta e membro da editora Confraria do Vento \u00a0 Nelson Mandela morreu, mas n\u00e3o o racismo. E muitos dos que acendem nesse instante uma vela em sua homenagem ainda velam em suas vidas para que essa forma de preconceito viva acesa. 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