{"id":779,"date":"2013-12-30T14:07:08","date_gmt":"2013-12-30T17:07:08","guid":{"rendered":"http:\/\/daslutas.wordpress.com\/?p=779"},"modified":"2014-01-11T22:47:02","modified_gmt":"2014-01-11T21:47:02","slug":"o-longo-ano-que-comecou-em-junho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/?p=779","title":{"rendered":"O longo ano que come\u00e7ou em Junho"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/12\/1380742_238923276263556_661709471_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-780 aligncenter\" alt=\"Black Prof\" src=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/12\/1380742_238923276263556_661709471_n-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/12\/1380742_238923276263556_661709471_n-300x225.jpg 300w, https:\/\/daslutas.noblogs.org\/files\/2013\/12\/1380742_238923276263556_661709471_n.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por Maur\u00edcio Campos &#8211; Militante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Viol\u00eancia<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u201cOs grandes acontecimentos revolucion\u00e1rios possuem a particularidade de que, por mais que tenham sido antecipados e esperados, n\u00e3o obstante t\u00e3o logo se produzem, apresentam-se diante n\u00f3s, em sua complica\u00e7\u00e3o e sua configura\u00e7\u00e3o concreta, como uma esfinge, como um problema que \u00e9 preciso compreender, indagar-se e apreender-se em cada uma de suas fibras.\u201d<\/em><\/div>\n<div>\n<div>\n<p>(Rosa Luxemburg, \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia (I)\u201d, primeiro de uma s\u00e9rie de artigos escritos imediatamente ap\u00f3s o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o de 1905 no Imp\u00e9rio Russo. Em <em>Obras Escogidas,<\/em> vol. 1, Ediciones Era, M\u00e9xico, 1978)<\/p>\n<\/div>\n<div><img alt=\"Longo ano\" \/><\/div>\n<p>Desde o <em>Caracazo<\/em> venezuelano de 1989, pelo menos, as explos\u00f5es de rebeli\u00f5es populares \u201cdescontroladas\u201d no mundo t\u00eam me fascinado. Aos poucos foi se firmando em mim a compreens\u00e3o de que, no mundo p\u00f3s-Guerra Fria, p\u00f3s-URSS e p\u00f3s-<em>apartheid<\/em>, tais rebeli\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 espont\u00e2neas como muitas vezes confusas e enigm\u00e1ticas, eram n\u00e3o obstante a forma concreta pela qual os explorados e oprimidos do mundo podiam avan\u00e7ar na resist\u00eancia e poss\u00edvel derrocada revolucion\u00e1ria do sistema capitalista mundial.<\/p>\n<p>Opini\u00e3o certamente her\u00e9tica segundo a maior parte da esquerda ortodoxa, mas a partir dela escrevi e me referi repetidamente a tais rebeli\u00f5es, desde os levantes negros em Los Angeles de 1992, passando pelo <em>Argentinazo<\/em> de 2001, a revolta das <em>banlieues<\/em> francesas em 2005, a Comuna de Oaxaca em 2006, etc.<\/p>\n<p>Claro que tal \u201cobsess\u00e3o\u201d continha e estimulava tamb\u00e9m a esperan\u00e7a que explos\u00f5es semelhantes acontecessem no Brasil mais cedo ou mais tarde. H\u00e1 algum tempo j\u00e1 havia me tornado descrente de que os partidos de esquerda e movimentos sociais mais tradicionais do Brasil pudessem iniciar alguma movimenta\u00e7\u00e3o de massas com potencial revolucion\u00e1rio. Por outro lado, j\u00e1 valorizava e participava dos \u201cnovos movimentos\u201d que se multiplicavam no v\u00e1cuo de luta e consci\u00eancia que partidos e movimentos como o PT e a CUT, e depois os governos por eles hegemonizados, haviam criado.<\/p>\n<p>Mesmo assim, por mais que me dedicasse a v\u00e1rios desses \u201cnovos movimentos\u201d, sempre pensei que em alguma hora haveria que acontecer o famoso \u201csalto de qualidade\u201d, que unisse tantas lutas e resist\u00eancias fragment\u00e1rias em algum tipo de levante de massas, sem o qual as perspectivas revolucion\u00e1rias de tais movimentos pioneiros ficariam muito restritas.<\/p>\n<p>Em junho desse ano essa esperan\u00e7a acalentada durante tantos anos come\u00e7ou a concretizar-se. O j\u00fabilo (n\u00e3o consigo encontrar outra palavra para descrever meus sentimentos) foi t\u00e3o grande que a \u00faltima coisa que pensei foi <strong>escrever<\/strong> sobre os levantes populares. Ir \u00e0s ruas, aos confrontos, \u00e0s barricadas, registrar e divulgar tudo isso, era o que mais importava. Ainda acho que, no fundo, \u00e9 o que importa. Mas a advert\u00eancia de Rosa na ep\u00edgrafe acima tamb\u00e9m \u00e9 fundamental. \u00c9 preciso enfrentar a esfinge, com as ferramentas anal\u00edticas que exigem tempo, foco, reflex\u00e3o, e se expressam muito melhor na escrita.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho certeza se tal an\u00e1lise j\u00e1 seja plenamente poss\u00edvel. A voragem n\u00e3o acabou, temporadas rebeldes ainda assomam no horizonte. Mas vi tantas \u201can\u00e1lises\u201d apressadas e disparatadas feitas por gente que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o participou, como assumiu uma posi\u00e7\u00e3o quase hostil frente aos levantes, e isso me parece que obriga a quem mergulhou nas lutas desde o in\u00edcio, e n\u00e3o se abalou com muitas coisas realmente estranhas que aconteceram, a tamb\u00e9m deixar seus rabiscos como contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Era \u00f3bvio?<\/strong><\/p>\n<p>Seguindo um padr\u00e3o de \u201can\u00e1lises de conjuntura\u201d supostamente marxista, muitos buscaram compilar dados econ\u00f4micos e sociais que mostrassem uma situa\u00e7\u00e3o deveras insuport\u00e1vel que explicasse uma explos\u00e3o t\u00e3o inesperada de gentes na rua. Certamente chamaram a aten\u00e7\u00e3o para coisas relevantes, como a p\u00e9ssima qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos no pa\u00eds e outras realidades que, de toda forma, est\u00e3o longe de ser novidade.<\/p>\n<p>A vida sob o capitalismo n\u00e3o tem como n\u00e3o ser insuport\u00e1vel, se levarmos em conta todo seu desenvolvimento hist\u00f3rico e sua extens\u00e3o mundial. Toda a arte de domina\u00e7\u00e3o das oligarquias mundiais consiste precisamente em obrigar os dominados a suportarem o insuport\u00e1vel. O que tem que ser explicado \u00e9 como e quando falha essa arte dos dominadores.<\/p>\n<p>Os levantes de junho no Brasil de forma alguma podem ser colocados na mesma categoria, quanto \u00e0s suas motiva\u00e7\u00f5es iniciais, que o Caracazo, o Argentinazo, ou mesmo as revoltas \u00e1rabes e os movimentos europeus que se sucedem desde 2008. Nestes casos, havia uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica bastante exasperante empurrando massas do povo para o protesto de rua.<\/p>\n<p>Entretanto, muitos outros levantes pelo mundo n\u00e3o precisaram de uma conjuntura econ\u00f4mica particularmente dram\u00e1tica para acontecer. A brecha no cotidiano de domina\u00e7\u00e3o pode nascer de conflitos sociais localizados amadurecidos ao longo do tempo at\u00e9 chegarem ao ponto de ruptura. Assim foi em Los Angeles em 1992, em Oaxaca em 2006, na Fran\u00e7a em 2005 ou no Chile nos \u00faltimos anos, por exemplo.<\/p>\n<p>Aproximaram-se mais de uma \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d quem buscou as ra\u00edzes da revolta na deteriora\u00e7\u00e3o acelerada da mobilidade urbana nos \u00faltimos anos no Brasil, que se liga a uma s\u00e9rie de outros conflitos urbanos que tem se agravado em fun\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio \u201cboom\u201d econ\u00f4mico da \u00faltima d\u00e9cada. Assim fez, por exemplo, Erm\u00ednia Maricato em entrevista na edi\u00e7\u00e3o especial da revista F\u00f3rum de julho de 2013 (n. 124, ano 12). Segundo ela, \u201cuma das coisas que era \u00f3bvia para todo mundo era a condi\u00e7\u00e3o de vida insuport\u00e1vel das cidades brasileiras\u201d.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, dizer que a vida sob o dom\u00ednio do capital \u00e9 insuport\u00e1vel \u00e9 de fato bastante \u00f3bvio, mas isso n\u00e3o explica nada. Se era tudo t\u00e3o \u201c\u00f3bvio\u201d, porque n\u00e3o foi previsto? Ok, tudo bem, exigir previs\u00e3o \u00e9 demais, ci\u00eancia social n\u00e3o \u00e9 bola de cristal. Mas porque a grande maioria destes pensadores que vieram com an\u00e1lises t\u00e3o bem elaboradas sobre as \u201ccrises\u201d que motivaram a revolta, em geral NUNCA apoiaram os movimentos, invariavelmente n\u00e3o institucionalizados, que atuam sobre os conflitos urbanos h\u00e1 muito tempo?<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Erm\u00ednia Maricato nunca foi muito pr\u00f3xima dos movimentos pautados pelas a\u00e7\u00f5es diretas e de rua em S\u00e3o Paulo, como o MPL (Movimento Passe Livre) e o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), e sempre orientou-se por aqueles \u201cmovimentos\u201d mais institucionalizados, pautados por co-administrar projetos de alcance reduzido numa parceria esp\u00faria com o poder p\u00fablico, em f\u00f3runs que sugam a energia militante dos ativistas enquanto a crise urbana se agrava. Sua miopia pol\u00edtica permanece, quando classifica de \u201cbom\u201d o discurso de Dilma em junho, no auge dos protestos, quando fez promessas vagas que n\u00e3o tiveram grande desdobramento at\u00e9 hoje. Segundo Maricato, foi positivo que Dilma \u201cn\u00e3o ficou falando de baderna\u201d, mas ela falou sim de \u201cvandalismo\u201d e n\u00e3o citou nem uma \u00fanica vez a quest\u00e3o da brutal repress\u00e3o policial \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u201cFalta uma pauta\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O problema geral das an\u00e1lises que se concentram nas ditas \u201ccausas objetivas\u201d dos levantes repentinos \u00e9 conduzir a um racioc\u00ednio que deprecia os elementos de consci\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o presentes em quaisquer lutas que durem mais que um par de horas. Assim, \u201cespont\u00e2neo\u201d vira sintoma de algo puramente reflexo, como se as massas do povo reagissem de maneira puramente animal \u00e0s tais \u201ccausas objetivas\u201d. Tal como na social-democracia do s\u00e9culo passado, criticada por Rosa Luxemburg, esse tipo de vis\u00e3o s\u00f3 considera \u201corganizado\u201d o que se enquadra nos partidos e sindicatos adaptados \u00e0 disputa rotineira das elei\u00e7\u00f5es e dos acordos coletivos.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ao \u201cespontane\u00edsmo\u201d das manifesta\u00e7\u00f5es manifestou-se igualmente na afirma\u00e7\u00e3o de que, ap\u00f3s a derrubada dos aumentos das tarifas em 19 e 20\/06, \u201cfaltava uma pauta\u201d ao movimento para que a energia de tantas pessoas nas ruas simplesmente n\u00e3o se dissipasse. Tal cr\u00edtica partiu indistintamente tanto da \u201cdireita\u201d (a grande imprensa e figuras p\u00fablicas da velha oligarquia) como da \u201cesquerda\u201d (o PT e aliados e tamb\u00e9m a esquerda de oposi\u00e7\u00e3o), e foi imediatamente seguida por uma sucess\u00e3o de tentativas de impor uma certa \u201cpauta\u201d aos protestos. Quer dizer, ao se dizer \u201cfalta uma pauta\u201d se queria dizer na verdade \u201csigam minha pauta\u201d!<\/p>\n<p>As oligarquias mais tradicionais (a \u201cdireita\u201d hist\u00f3rica) propuseram de forma totalmente oportunista uma \u201cpauta\u201d moralista, abstratamente anti-corrup\u00e7\u00e3o, aproveitando-se do sentimento difuso de rep\u00fadio ao sistema pol\u00edtico apodrecido que existia e existe entre as pessoas. Tiveram um \u00eaxito inicial, por\u00e9m muito breve, mesmo assim isso ajudou a dar base a certas an\u00e1lises apressadas de que \u201ca direita havia se apoderado dos protestos\u201d (voltarei a isso). J\u00e1 as novas oligarquias representadas pelo PT e movimentos associados responderam conclamando a uma reuni\u00e3o em torno da \u201cpauta\u201d apresentada por Dilma em seu pronunciamento ainda em junho, principalmente a \u201creforma pol\u00edtica\u201d, que pudesse incluir at\u00e9 uma nova constituinte.<\/p>\n<p>Ambas tentativas fracassaram, e \u00e9 poss\u00edvel que muitos vejam nisto a raz\u00e3o para os atos terem perdido o car\u00e1ter massivo nos meses seguintes (at\u00e9 outubro, no Rio de Janeiro). Mas a verdade \u00e9 que, ainda em junho, nos protestos que continuaram at\u00e9 o final da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, a \u201cpauta\u201d geral que a maior parte das pessoas na rua abra\u00e7ou, al\u00e9m do rep\u00fadio \u00e0 repress\u00e3o brutal (tamb\u00e9m voltarei a esse ponto fundamental), foi a exig\u00eancia de servi\u00e7os p\u00fablicos decentes, principalmente na sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o, exig\u00eancia intimamente associada \u00e0 den\u00fancia dos gastos absurdos nos est\u00e1dios e outras estruturas visando a Copa de 2014 e (no Rio) as Olimp\u00edadas de 2016. Pauta essa cultivada por anos a fio por movimentos sociais de base e incompat\u00edvel com os interesses das oligarquias velhas e novas.<\/p>\n<p>E est\u00e1 longe de ser uma pauta gen\u00e9rica e mal-definida. Claro que nem todo manifestante saberia indicar com exatid\u00e3o quais medidas ou reformas prop\u00f5e para se conquistar servi\u00e7os p\u00fablicos acess\u00edveis e de qualidade, mas sempre foi assim em movimentos verdadeiramente de massas. Os detalhes dos \u201cprogramas\u201d e das reivindica\u00e7\u00f5es s\u00e3o de dom\u00ednio dos militantes mais ativos e dedicados (ou dos \u201cdirigentes\u201d, nos movimentos mais hierarquizados), mas isso n\u00e3o nega sua organicidade. Uma enorme multiplicidade de movimentos e grupos t\u00eam realizado encontros, produzido literatura militante e tra\u00e7ado programas de reivindica\u00e7\u00f5es nas \u00faltimas d\u00e9cadas, e isso forneceu a base para a continuidade das mobiliza\u00e7\u00f5es quando, a partir de julho, os grandes atos deram lugar a milhares de lutas e protestos menores e mais fragmentados.<\/p>\n<p><strong>Que revolu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Essa fragmenta\u00e7\u00e3o, claro, serviu para um outro tipo de cr\u00edtica do tipo \u201cfalta uma pauta\u201d, dessa vez por parte de setores de esquerda anti-sist\u00eamicos que lamentaram os protestos n\u00e3o adotarem suas propostas e \u201cprogramas\u201d revolucion\u00e1rios. Criticava-se (e critica-se) o fato dos movimentos n\u00e3o adotarem uma postura \u201cclaramente socialista\u201d e buscarem explicitamente \u201ca derrocada do Estado burgu\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o toda aqui \u00e9 se existe hoje \u201cclareza\u201d em algum lugar sobre como desestruturar o Estado, ultrapassar o capitalismo e construir uma nova sociabilidade melhor, igualit\u00e1ria e livre. Vivemos j\u00e1 h\u00e1 algumas d\u00e9cadas uma \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica profunda, na qual os grandes movimentos anti-sist\u00eamicos estruturados desde o s\u00e9culo XIX ou mesmo antes (socialismo, anti-colonialismo e suas numerosas variantes) chegaram aparentemente ao seu apogeu sem destruir definitivamente o sistema mundial capitalista, embora modificando-o profundamente. As estrat\u00e9gias de revolu\u00e7\u00e3o concebidas ao longo do s\u00e9culo XX encontram-se todas em crise, o que n\u00e3o tem um aspecto puramente negativo.<\/p>\n<p>Tais afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o querem dizer que vejo tudo como uma indefini\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande que n\u00e3o haveria hoje caminhos ao menos para se tentar decifrar os rudimentos de novas estrat\u00e9gias revolucion\u00e1rias globais. Muita coisa j\u00e1 est\u00e1 sendo pensada e formulada nesse sentido, em todo o mundo. N\u00e3o cabe aqui aprofundar, pois ficaria um texto extremamente longo, mas quero dizer que eu tamb\u00e9m tenho buscado nesse sentido j\u00e1 faz algum tempo. Em 2002 escrevi um texto bastante pesado e que eu mesmo acho dif\u00edcil de ler, com um t\u00edtulo meio pedante (\u201cA constru\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia \u00e9 a chave para a vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria\u201d), e que circulou somente para um n\u00famero restrito de pessoas (nas refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas acad\u00eamicas seria <em>mimeo<\/em>), o qual citarei algumas vezes mais adiante, e no qual tra\u00e7o um conjunto bastante amplo de quest\u00f5es que podem servir de roteiro auxiliar para uma elabora\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, mas h\u00e1 poucas conclus\u00f5es. Posteriormente, diversos aspectos refinei, revisei e aprofundei em outros escritos, mas ainda n\u00e3o h\u00e1 muitas conclus\u00f5es. N\u00e3o vejo como ser diferente atualmente, \u00e9 necess\u00e1rio um processo bastante \u00e1rduo de aproxima\u00e7\u00f5es, que s\u00f3 podem ser feitas se mergulhamos sem receio no turbilh\u00e3o das revoltas espont\u00e2neas que se sucedem em todo mundo.<\/p>\n<p>Portanto n\u00e3o vejo como criticar os protestos e os movimentos do levante brasileiro por n\u00e3o terem \u201cclareza revolucion\u00e1ria\u201d. O que podemos \u201cexigir\u201d, de um ponto de vista anti-sist\u00eamico, \u00e9 que os novos movimentos sejam fi\u00e9is aos seus pr\u00f3prios postulados radicais.<\/p>\n<p>Vejamos o exemplo do MPL, que tem em sua carta de princ\u00edpios a defini\u00e7\u00e3o anticapitalista. Pode-se questionar, com alguma raz\u00e3o, que esse anticapitalismo, na pr\u00e1tica, se expressa apenas em metodologias organizacionais (horizontalidade, independ\u00eancia, etc) e n\u00e3o se fala claramente em aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e das rela\u00e7\u00f5es mercantis, fundamentos do capitalismo nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Contudo, o programa do MPL, no seu campo espec\u00edfico de atua\u00e7\u00e3o, tem como bandeira \u201cemergencial\u201d a tarifa zero para os transportes coletivos urbanos, que \u00e9 incompat\u00edvel com rela\u00e7\u00f5es de mercado. No m\u00ednimo, a tarifa zero introduz, caso o servi\u00e7o concreto \u2013 valor de uso \u2013 do transporte continuasse a ser prestado por empresas privadas, uma tens\u00e3o insuper\u00e1vel entre o Estado subsidiador e o capital em busca de lucro m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Mas o programa do MPL n\u00e3o p\u00e1ra na tarifa zero. Sua carta de princ\u00edpios coloca como objetivo \u201cuma outra l\u00f3gica de transporte\u201d, \u201cum transporte gerido pelo interesse dos trabalhadores. N\u00e3o as empresas, os pol\u00edticos ou os t\u00e9cnicos que devem definir como deve funcionar. Quem tem autoridade para dizer como o sistema de transporte vai ser administrado \u00e9 quem o utiliza todo dia\u201d (declara\u00e7\u00f5es de Caio Martins, ativista do MPL\/SP, na reportagem \u201cPor uma vida sem catracas\u201d, na j\u00e1 citada edi\u00e7\u00e3o especial da revista F\u00f3rum de julho). Uma rota de luta claramente incompat\u00edvel com o capitalismo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 como ser anticapitalista numa luta espec\u00edfica pois o capitalismo \u00e9 um sistema global, reclamar\u00e3o os revolucion\u00e1rios socialistas ortodoxos. Sim, mas se cada movimento persiste no seu radicalismo e se todos se encontram na insurrei\u00e7\u00e3o, essa limita\u00e7\u00e3o se supera, na pr\u00e1tica, como deve ser, e n\u00e3o na pura teoria.<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o se aplica igualmente aos movimentos que combatem as chamadas \u201copress\u00f5es espec\u00edficas\u201d, como os movimentos feministas, LGBT, etc (os movimentos anti-racistas t\u00eam um estatuto e um significado um tanto diferente; no Brasil, s\u00e3o muito mais \u201cgerais\u201d que \u201cespec\u00edficos\u201d, falarei deles mais adiante), e que n\u00e3o por acaso tiveram um espa\u00e7o destacado nos protestos desse ano. Muitas vezes se produz uma cr\u00edtica \u201cde esquerda\u201d a tais movimentos porque eles n\u00e3o levariam em conta o \u201csistema como um todo\u201d, n\u00e3o adotariam, junto com suas pautas espec\u00edficas, um \u201cprograma revolucion\u00e1rio geral\u201d, etc. Bem, tais movimentos, se forem <strong>radicais<\/strong> (radicalmente anti-machistas, anti-homof\u00f3bicos, anti-criminaliza\u00e7\u00e3o das drogas, etc) ser\u00e3o anti-sist\u00eamicos, anti-capitalistas. E a supera\u00e7\u00e3o das suas \u201cparticularidades\u201d n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o a ser resolvida teoricamente, mas praticamente, na pr\u00e1tica do levante, da insurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Partidos, de vil\u00f5es a v\u00edtimas e vice-versa<\/strong><\/p>\n<p>Relacionada \u00e0s criticas de \u201cfalta de pauta\u201d e \u201cfalta de clareza revolucion\u00e1ria\u201d, est\u00e1 a cr\u00edtica aos protestos por manifestarem uma tend\u00eancia \u201cviolentamente\u201d anti-partidos. \u00c9 uma cr\u00edtica bem mais especificamente \u201cde esquerda\u201d, proveniente da esquerda partid\u00e1ria, \u00e9 claro. A oligarquia brasileira tradicional, com seus partidos de direita j\u00e1 profundamente desgastados, concluiu que era oportuno se aproveitar do sentimento anti-partido para buscar atacar a \u201cesquerda\u201d governista e a extrema-esquerda oposicionista atrav\u00e9s do discurso difuso da anti-corrup\u00e7\u00e3o. E a extrema-direita fascista resolveu finalmente se expor e partir para a t\u00e1tica <em>skinhead<\/em> de comprar briga de rua com a extrema-esquerda partid\u00e1ria. Ganharam as brigas mas erraram o alvo, falarei disso mais adiante.<\/p>\n<p>Seja como for, essa explos\u00e3o de trucul\u00eancia fascista, se aproveitando do sentimento anti-partido, foi o momento mais confuso dos protestos. Ouvi companheiros profundamente desolados falarem que \u201chav\u00edamos sido derrotados\u201d, \u201ca direita tomou conta dos protestos\u201d, \u201co fascismo est\u00e1 crescendo\u201d, etc. Muitos se retiraram das manifesta\u00e7\u00f5es. E at\u00e9 movimentos apartid\u00e1rios que estavam na linha de frente desde o in\u00edcio vacilaram e quase recuaram. Foi muito estranho. Mas foi s\u00f3 um momento.<\/p>\n<p>A esquerda partid\u00e1ria, \u00e9 claro, trata a posi\u00e7\u00e3o anti-partido como um erro simplesmente. Atribuem-na a uma campanha sorrateira da grande imprensa e \u00e0 inconseq\u00fc\u00eancia do \u201canarquismo\u201d. A extrema-esquerda partid\u00e1ria reconhece a contribui\u00e7\u00e3o que o oportunismo e a degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do PT, PCdoB e outros deram a tal sentimento, mas insiste que se trata de uma \u201cfalsa l\u00f3gica, segundo a qual todos os partidos s\u00e3o iguais, da\u00ed a rejei\u00e7\u00e3o\u201d (declara\u00e7\u00e3o de Ivan Valente, deputado federal do PSOL, na reportagem \u201cOs Descontentes Pol\u00edticos\u201d, na edi\u00e7\u00e3o n. 196, junho de 2013, da revista <em>Caros Amigos<\/em>). Essa posi\u00e7\u00e3o aproxima-se curiosamente de certo discurso da grande imprensa segundo o qual o problema do sistema pol\u00edtico da democracia representativa liberal estaria simplesmente nos desvios \u201cde corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Outra parte da extrema-esquerda partid\u00e1ria, aquela que participa de elei\u00e7\u00f5es mas n\u00e3o tem praticamente nenhuma express\u00e3o eleitoral, e contra a qual acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o s\u00e3o bem fr\u00e1geis (a n\u00e3o ser para certas utiliza\u00e7\u00f5es escusas da m\u00e1quina burocr\u00e1tica dos sindicatos), centra suas cr\u00edticas, por sua vez, na \u201cinconseq\u00fc\u00eancia\u201d do anarquismo\/autonomismo. Diante disso, o historiador da USP Lincoln Secco, na mesma reportagem \u201cOs Descontentes Pol\u00edticos\u201d perguntou com raz\u00e3o: \u201cMas se um partido teria sido mais eficiente do que o MPL ent\u00e3o por que nenhum dos partidos dispon\u00edveis de extrema esquerda foi seguido pelas \u2018massas\u2019?\u201d<\/p>\n<p>Na mesma edi\u00e7\u00e3o da <em>Caros Amigos<\/em>, na entrevista \u201cA tarefa \u00e9 fortalecer as lutas sociais\u201d, o militante do MTST\/SP, Gabriel Simeoni, aproximou-se de uma resposta ao afirmar que \u201cse algu\u00e9m aparecer com alguma bandeira de algum partido, seja do PT, do PSOL, do PSTU ou do PCO numa manifesta\u00e7\u00e3o, soa como oportunismo eleitoral, n\u00e3o \u00e9 uma avers\u00e3o aos partidos, \u00e9 uma avers\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es\u201d. Sim, mas \u00e9 um pouco mais que isso. N\u00e3o s\u00f3 grupos de partidos, mas inclusive grupos de movimentos como o MTST e o MST, por exemplo, tamb\u00e9m foram hostilizados, embora n\u00e3o participem de elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 \u00f3bvio. Entretanto, na est\u00e9tica dos protestos, pareciam-se com as colunas partid\u00e1rias por comportarem-se com uma certa \u201cuniformidade\u201d de bandeiras (quase sempre vermelhas), e \u00e0s vezes de bon\u00e9s e camisetas. A grande maioria dos manifestantes fugia conscientemente dessa uniformidade, e mesmo sendo \u201cmassa\u201d (no sentido de quantidade), e exatamente por serem multid\u00e3o revelarem sua pot\u00eancia nas ruas, cada pequeno grupo ou manifestante fazia quest\u00e3o de marcar sua individualidade carregando sua pr\u00f3pria faixa e seu cartaz, revivendo inclusive a t\u00e9cnica b\u00e1sica da cartolina e hidrocor, uma das marcas registradas dos protestos de 2013.<\/p>\n<p>Essa diverg\u00eancia est\u00e9tica reflete tamb\u00e9m uma diferen\u00e7a de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. As faixas e cartazes dos manifestantes \u201cn\u00e3o-uniformizados\u201d n\u00e3o reproduziam siglas, s\u00edmbolos ou logotipos de partidos ou movimentos, mas tinham cada uma sua pr\u00f3pria mensagem, reivindica\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica, sarcasmo, desabafo, enfim, essa explos\u00e3o de criatividade popular que foi um dos tantos milagres de um ano t\u00e3o miraculoso.<\/p>\n<p>Abro aqui par\u00eanteses. N\u00e3o acredito que \u201cuniformes\u201d sejam algo totalmente ultrapassado e in\u00fatil na luta social anti-sist\u00eamica. Mas penso que sua utilidade se reduz cada vez mais \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o original na t\u00e9cnica b\u00e9lica\/militar: identificar com a maior precis\u00e3o poss\u00edvel quem \u00e9 amigo e quem \u00e9 inimigo no campo de batalha. Muitos grupos que nos protestos empenhavam-se nos confrontos com a pol\u00edcia usaram muito eficientemente bandeiras com esse prop\u00f3sito. A pr\u00f3pria t\u00e1tica <em>black bloc<\/em>, longe de ser puro esteticismo (como j\u00e1 ouvi v\u00e1rias vezes), em parte \u00e9 uma recupera\u00e7\u00e3o dessa fun\u00e7\u00e3o primordial do uniforme. Fecha par\u00eanteses.<\/p>\n<p>O \u201cdesgaste\u201d dos partidos \u00e9 parte da exaust\u00e3o dos processos pol\u00edticos dominantes desde o s\u00e9culo XIX, o que inclui mas n\u00e3o se resume aos mecanismos eleitorais da democracia representativa. O que vemos em todo mundo \u00e9 uma demanda incontida de participa\u00e7\u00e3o direta nas decis\u00f5es p\u00fablicas, um rep\u00fadio veemente \u00e0s oligarquias, elites, hierarquias e \u201cdire\u00e7\u00f5es\u201d que buscam monopolizar as escolhas pol\u00edticas que dizem respeito \u00e0 toda sociedade atrav\u00e9s de mecanismos opacos e pouco compreens\u00edveis \u00e0 grande maioria das pessoas. Nem a representa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas com sufr\u00e1gio universal, o m\u00e1ximo que a elite capitalista ocidentalizada do mundo aceita como \u201cparticipa\u00e7\u00e3o\u201d, d\u00e1 conta disso. Os partidos, parte insepar\u00e1vel desse sistema capenga, entram em crise irremediavelmente porque, sejam eleitorais ou n\u00e3o, reacion\u00e1rios ou revolucion\u00e1rios, concebem-se e existem como <em>instrumentos de poder<\/em> distintos dos organismos de poder n\u00e3o concentrado ou hierarquizado, que potencialmente criam o que chamamos <em>poder popular<\/em>.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o que assumo de forma oportunista, embriagado pelos acontecimentos deste ano. A reformula\u00e7\u00e3o profunda da vis\u00e3o que eu tinha dos partidos j\u00e1 tem bem mais de uma d\u00e9cada, e a parte final do texto <em>mimeo<\/em> de 2002 do qual j\u00e1 falei mais acima (\u201cA constru\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia\u2026\u201d) \u00e9 dedicada somente a isso, inclusive com uma resenha hist\u00f3rica resumida sobre a evolu\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o de partido revolucion\u00e1rio. Acho que at\u00e9 vale a pena divulg\u00e1-la como artigo em separado, mas por enquanto cito apenas um trecho, que tamb\u00e9m serve para mostrar que, quem repudia a organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, n\u00e3o necessariamente repudia a constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es militantes reunindo pessoas com objetivos revolucion\u00e1rios:<\/p>\n<p><em>\u201cA completa supera\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o militante como instrumento de poder \u00e9 essencial para a constru\u00e7\u00e3o conseq\u00fcente de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e para um trabalho que leve as organiza\u00e7\u00f5es de lutas de massas a se tornarem \u00f3rg\u00e3os de poder popular. Contudo, se abandonamos essa concep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe mais nenhuma justificativa para chamarmos as organiza\u00e7\u00f5es militantes de partidos. N\u00e3o se trata de um expediente t\u00e1tico, pelo fato do termo \u2018partido\u2019 estar desgastado ou coisa parecida, mas uma inevit\u00e1vel conclus\u00e3o conceitual. As organiza\u00e7\u00f5es militantes revolucion\u00e1rias do proletariado surgiram como \u2018partidos\u2019 porque concebiam-se desde o in\u00edcio como instrumentos de poder. Continuaram chamando-se \u2018partidos\u2019, por longo tempo, porque embora desmentida pela experi\u00eancia hist\u00f3rica, a concep\u00e7\u00e3o delas como instrumentos de poder ressurgiu e consolidou-se atrav\u00e9s das complexas experi\u00eancias de derrotas e retrocessos das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias dos s\u00e9culos XIX e XX. Se tirarmos as corretas conclus\u00f5es de toda esta hist\u00f3ria, s\u00f3 podemos concluir que estamos nos livrando com muito atraso desse inadequado termo \u2018partido\u2019.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>\u201cDireita\u201d e \u201cvandalismo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Lembro de uma reuni\u00e3o, ainda em junho, na qual participei, onde se debatia calorosamente se os protestos tinham um car\u00e1ter emancipador, progressista, ou ao contr\u00e1rio seriam reacion\u00e1rios e at\u00e9 mesmo \u201cfascistas\u201d. Intervi dizendo que, em algo t\u00e3o grande como uma aut\u00eantica insurrei\u00e7\u00e3o popular, e a rea\u00e7\u00e3o contra-revolucion\u00e1ria que a segue, \u00e9 inevit\u00e1vel que o melhor e o pior que existe na sociedade se revele, se exponha, mas que isso n\u00e3o pode nos levar a perder o foco.<\/p>\n<p>Entres os candidatos a \u201cpior da sociedade\u201d que se revelaram a partir de junho, duas coisas bem diferentes se destacaram: os grupos, bandeiras e reivindica\u00e7\u00f5es de extrema-direita; e a viol\u00eancia contra bens materiais e, em escala bem menor, pessoas ligadas ao aparato pol\u00edtico e policial.<\/p>\n<p>A s\u00fabita irrup\u00e7\u00e3o das sombras fascistas atordoou a esquerda e os movimentos sociais, mas foi pouco evidenciada pela grande imprensa. Mas no fundo n\u00e3o revelou nada de novo. Grupos fascistas t\u00eam proliferado meio silenciosamente no Brasil j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, e nunca foram de fato confrontados pelos movimentos progressistas. Esse crescimento na penumbra pol\u00edtica foi, na verdade, muito favorecido pela vergonhosa concilia\u00e7\u00e3o que marcou a transi\u00e7\u00e3o da ditadura civil-militar para a \u201cdemocracia\u201d nos anos 80 do s\u00e9culo passado, e que deixou intocados tanto o essencial do aparato repressivo da tirania (pol\u00edcia militar e civil, oficialato das for\u00e7as armadas, justi\u00e7a militar separada, \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia e monitoramento dos movimentos populares, etc) quanto os crimes de tortura, desaparecimento for\u00e7ado e assassinatos cometidos por mais de 20 anos quando a extrema-direita esteve abertamente controlando o poder de Estado.<\/p>\n<p>Por outro lado, j\u00e1 h\u00e1 alguns anos uma insidiosa afirma\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00f5es ultra-conservadoras, como a redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal e a grita por endurecimento penal em geral, retorno do ensino religioso nas escolas p\u00fablicas (do qual se favorecem as religi\u00f5es crist\u00e3s, hegem\u00f4nicas, \u00e9 claro), defini\u00e7\u00e3o de leis \u201canti-terroristas\u201d e outras que apontam para o renascimento da id\u00e9ia de \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d, combinam-se com a repeti\u00e7\u00e3o de atos e movimentos abertamente racistas, sexistas e homof\u00f3bicos. Mas tudo isso acontece de forma contradit\u00f3ria, pois ao mesmo tempo h\u00e1 uma afirma\u00e7\u00e3o crescente e p\u00fablica, como n\u00e3o se via h\u00e1 muito tempo, de vis\u00f5es e movimentos que desafiam de forma muito aberta os padr\u00f5es crist\u00e3os\/ocidentais\/masculinos\/repressores dominantes, e que em alguns casos conquistaram marcos institucionais importantes. O que se observa, portanto, \u00e9 muito mais uma <strong>polariza\u00e7\u00e3o<\/strong> entre posi\u00e7\u00f5es neo-conservadoras e progressistas, que o fortalecimento indiscut\u00edvel do atraso. Mais um sinal de tens\u00f5es sociais crescentes na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>O aparecimento disso tudo na rua foi, assim penso, algo no fundo positivo, pois obrigou a \u201ccair a ficha\u201d de muita gente. Mostra que as for\u00e7as da mudan\u00e7a precisam se organizar e se mobilizar muito mais, e n\u00e3o se acomodarem com pequenos avan\u00e7os na lei ou com a multiplica\u00e7\u00e3o de pesquisas acad\u00eamicas progressistas, por exemplo. Mas de modo nenhum mostrou uma for\u00e7a irresist\u00edvel da extrema-direita. Sua pujan\u00e7a sumiu quando resolveu convocar atos exclusivamente em torno de suas bandeiras moralistas e por \u201cmais seguran\u00e7a\u201d, grandes fracassos. Aqui no Rio, n\u00e3o conseguiram nem mesmo polarizar a massa cat\u00f3lica de \u201cperegrinos\u201d durante a Jornada Mundial da Juventude para massacrar uma minorit\u00e1ria mas significativa Marcha das Vadias. Os bandos fascistas que agrediram militantes de partidos e movimentos, por sua vez, logo se retiraram de cena e voltaram a atuar exclusivamente no seu <em>habitat<\/em> natural, os aparatos repressivos do Estado.<\/p>\n<p>O chamado \u201cvandalismo\u201d, por sua vez, \u00e9 algo de fato novo nas lutas sociais no Brasil. N\u00e3o que atos de depreda\u00e7\u00e3o material, quebra-quebras e resist\u00eancia massiva \u00e0 repress\u00e3o policial nas ruas fossem inexistentes (em algumas ocasi\u00f5es houve quebradeiras realmente grandiosas, como a dos \u00f4nibus no centro do Rio em 1987), mas a novidade esteve na <em>perman\u00eancia<\/em> do desafio \u00e0 repress\u00e3o policial mesmo com tanta brutalidade. Manifestantes rapidamente desenvolveram t\u00e1ticas de defesa e ataque para sustentar confrontos durante horas nas ruas, algo que apenas as batalhas entre vendedores ambulantes (camel\u00f4s, marreteiros, etc) ou torcedores de futebol, e a pol\u00edcia (Choque da PM e Guarda Municipal) haviam tenuemente antecipado em algumas cidades brasileiras. Barricadas, cercos, inc\u00eandios direcionados, movimenta\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de manifestantes, todas essas t\u00e9cnicas em muito pouco tempo tornaram-se comuns nos protestos. O medo de enfrentar a pol\u00edcia, se n\u00e3o desapareceu, enfraqueceu-se de maneira not\u00e1vel. \u00c9 um dos fatos mais significativos da insurrei\u00e7\u00e3o popular de junho, um marco nas lutas populares no Brasil. E \u00e9 mais um milagre de 2013.<\/p>\n<p>O ataque midi\u00e1tico ao \u201cvandalismo\u201d tornou-se por sua vez o centro da disputa pela opini\u00e3o p\u00fablica tanto por parte da direita tradicional como da esquerda institucionalista, que assim se revelaram afinadas e aliadas na defesa da ordem questionada pelas ruas. Centrando fogo em a\u00e7\u00f5es sem d\u00favida desnecess\u00e1rias e contraproducentes, mas bastante minorit\u00e1rias, como a destrui\u00e7\u00e3o de pontos de \u00f4nibus ou bancas de jornais, tentaram colocar a opini\u00e3o popular contra a\u00e7\u00f5es inteiramente leg\u00edtimas, do ponto de vista do protesto popular contra uma ordem injusta, como o bloqueio de ruas, barricadas e ataques contra s\u00edmbolos do grande capital (bancos e sedes de grandes empresas) e do Estado (assembl\u00e9ias e pal\u00e1cios). Tentaram e ainda tentam, mas n\u00e3o foram bem sucedidos at\u00e9 agora. O maior s\u00edmbolo de seu fracasso, ainda que parcial, foi a inesquec\u00edvel imagem do Datena (apresentador sensacionalista da TV Bandeirantes) sendo surpreendido ao vivo pela aprova\u00e7\u00e3o popular, numa enquete em tempo real que ele tentou manipular, aos \u201cprotestos com baderna\u201d. Tenho essa cena gravada e sugiro que a assistam todos que se sintam um pouco deprimidos com as dificuldades da conjuntura\u2026<\/p>\n<p>O \u201cvandalismo\u201d nos protestos foi acusado, de forma grotesca, como motivador da repress\u00e3o e dos \u201cexcessos\u201d da PM (como se algumas vidra\u00e7as quebradas justificassem atingir os olhos de jornalistas e manifestantes com balas de borracha ou sufocar pessoas \u2013 inclusive causando sua morte \u2013 com quantidades absurdas de g\u00e1s lacrimog\u00eanio e spray de pimenta, sem falar nos espancamentos) e, assim, por ter \u201cafastado das ruas\u201d milhares de \u201cmanifestantes pac\u00edficos\u201d. Mas, mesmo admitindo que foi assim, o que para mim \u00e9 muito question\u00e1vel, quem se afastou? E porque?<br \/>\nUma resposta pode ser sugerida assistindo-se a um dos melhores document\u00e1rios \u201cninja\u201d produzidos sobre o protesto, <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KktR7Xvo09s\" target=\"_blank\">Com Vandalismo<\/a> (Nig\u00e9ria Filmes). Percebe-se a\u00ed que os manifestantes \u201cpac\u00edficos\u201d e \u201cv\u00e2ndalos\u201d diferenciam-se n\u00e3o apenas pela forma de se manifestar (\u201cpac\u00edfica\u201d ou \u201cviolenta\u201d) mas tamb\u00e9m pela origem\/posi\u00e7\u00e3o de classe (os \u201cv\u00e2ndalos\u201d s\u00e3o majoritariamente prolet\u00e1rios bem pobres, enquanto os \u201cpac\u00edficos\u201d tendem a ser de classe m\u00e9dia mais remediada) e pelos posicionamentos sociais e pol\u00edticos (o discurso dos \u201cv\u00e2ndalos\u201d \u00e9 notadamente mais radical e exige mudan\u00e7as sociais mais profundas). Ent\u00e3o, se o \u201cvandalismo\u201d realmente esvaziou os atos (eu penso que foi a repress\u00e3o estatal que o fez) foi num sentido de torn\u00e1-los mais radicalizados e mais \u201cpopulares\u201d (no sentido de \u201cprolet\u00e1rios\u201d).<\/p>\n<p>Os pap\u00e9is tanto da \u201cdireita\u201d como do \u201cvandalismo\u201d ficaram muito claros no grande protesto do dia 20\/06 na Pres. Vargas no Rio de Janeiro. A extrema-direita fascista se organizou para emboscar os partidos de esquerda e alguns movimentos nas imedia\u00e7\u00f5es da Candel\u00e1ria (pr\u00f3ximo \u00e0 rua Uruguiana), a massa \u201ccara pintada\u201d convocada pela Globo ficou entre a Candel\u00e1ria e a Central, aproximadamente, e os manifestantes mais radicais (incluindo um grande n\u00famero de jovens das favelas da regi\u00e3o central do Rio) se dirigiram para o in\u00edcio da avenida buscando a dire\u00e7\u00e3o da Pra\u00e7a da Bandeira e do Maracan\u00e3 (onde transcorria a partida entre Espanha e Taiti pela Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, lembro bem porque assisti a partida com meus filhos e amigos no est\u00e1dio e abrimos duas grandes faixas em apoio \u00e0 Aldeia Maracan\u00e3 durante o jogo). Essa massa radicalizada entrou em confronto com o imenso aparato policial, detonando uma repress\u00e3o tresloucada da PM, que perseguiu pessoas por todo o centro do Rio e \u00e1reas pr\u00f3ximas noite adentro. A essa altura a extrema-direita e os cara-pintadas, com suas bandeiras conservadoras, j\u00e1 haviam se retirado da cena, e n\u00e3o mais voltaram \u00e0s ruas com a mesma for\u00e7a. J\u00e1 a parte mais \u00e0 esquerda e radicalizada, ainda que confusa e com contradi\u00e7\u00f5es, voltaria \u00e0 rua pelo resto do ano, aperfei\u00e7oando progressivamente a maneira de combinar os momentos \u201cpac\u00edficos\u201d e \u201cviolentos\u201d dos protestos.<\/p>\n<p><strong>\u201cClasse m\u00e9dia\u201d e \u201cprolet\u00e1rios\u201d, ou \u201cbrancos\u201d e \u201cfavelados\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o do \u201cvandalismo\u201d nos ent\u00e3o leva a duas outras quest\u00f5es decisivas e relacionadas: a dita \u201ccomposi\u00e7\u00e3o de classe\u201d dos protestos e o desmascaramento do car\u00e1ter brutalmente repressor, racista e burgu\u00eas do Estado brasileiro. Come\u00e7arei pela primeira.<\/p>\n<p>Tornou-se rapidamente senso comum a afirma\u00e7\u00e3o de que os protestos foram iniciados e sempre dominados por uma classe m\u00e9dia urbana, branca, instru\u00edda e politizada; e que a participa\u00e7\u00e3o da \u201cclasse trabalhadora\u201d ou da \u201cfavela\u201d era secund\u00e1ria ou subordinada. Essa afirma\u00e7\u00e3o quase sempre era feita com uma carga negativa, e a mesma deprecia\u00e7\u00e3o se aplicava \u00e0 juventude da grande maioria dos manifestantes. Na reportagem \u201cDas redes \u00e0s ruas\u201d da j\u00e1 citada edi\u00e7\u00e3o n. 196 da <em>Caros Amigos<\/em>, o fil\u00f3sofo e cientista pol\u00edtico da UFRJ Wanderley Guilherme dos Santos, exemplo de opini\u00f5es alarmistas sobre as conseq\u00fc\u00eancias das manifesta\u00e7\u00f5es (que para ele seriam simplesmente um golpe da direita parecido com 1964), diz: \u201c\u00c9 um besteirol imenso ficar festejando a juventude. No meu tempo de juventude tinha altru\u00edsmo, mas o futuro que a minha gera\u00e7\u00e3o de idealistas construiu \u00e9 esse que est\u00e1 a\u00ed\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum pessoas que na juventude participaram de lutas importantes, mas depois se afastaram de qualquer movimento importante nas ruas, n\u00e3o compreenderem e menosprezarem as novas batalhas travadas pelos jovens. Mas felizmente h\u00e1 os que permanecem jovens na vontade e no inconformismo, como os senhores que protagonizaram uma das mais belas cenas dos protestos, ao levarem uma faixa onde se dizia \u201ca gera\u00e7\u00e3o de 1968 ap\u00f3ia a gera\u00e7\u00e3o de 2013\u201d! A generosidade e conseq\u00fc\u00eancia desses senhores \u00e9 bem ilustrada pelo artigo de Mouzar Benedito na j\u00e1 citada edi\u00e7\u00e3o especial da revista F\u00f3rum, \u201cAprende-se a fazer fazendo\u201d. Ele compara as formas de comunica\u00e7\u00e3o, a improvisa\u00e7\u00e3o e o enfrentamento com a repress\u00e3o de 1968 com as de 2013, e mostra que apesar das grandes diferen\u00e7as h\u00e1 muito mais pontos de contato e converg\u00eancias. Os jovens de hoje tamb\u00e9m percebem isso: no protesto de 17\/06 aqui no Rio uma das palavras de ordem mais bradadas foi \u201cum, dois, tr\u00eas, quatro, cinco mil; essa \u00e9 a nova passeata dos 100 mil\u201d!<\/p>\n<p>Sou de uma gera\u00e7\u00e3o posterior \u00e0 de 1968, mas na minha juventude (a partir dos 15 anos aproximadamente) participei das lutas finais contra a ditadura, desde as passeatas pela Anistia at\u00e9 as Diretas J\u00e1, e das lutas sociais radicalizadas dos anos 80, que culminaram nas greves gerais de 1989 e 1990. Estive ao lado dos jovens de hoje em 2013, inclusive nas barricadas e confrontos, e posso afirmar, ao contr\u00e1rio do fil\u00f3sofo da UFRJ, que encontrei neles altru\u00edsmo e camaradagem, pelo menos na mesma medida que havia entre meus companheiros e amigos de 1978 a 1989.<\/p>\n<p>Como em 2013, no in\u00edcio dos protestos, as manifesta\u00e7\u00f5es de 1968 eram quase inteiramente constitu\u00eddas por jovens estudantes, que na \u00e9poca eram muito mais de classe m\u00e9dia do que hoje. Mas isso n\u00e3o os impediu de se tornarem a vanguarda de lutas radicalizadas e anti-sist\u00eamicas, inclusive da luta armada contra a ditadura. E n\u00e3o representavam \u201ca\u201d classe m\u00e9dia como um todo (que se beneficiou largamente do boom econ\u00f4mico sob a ditadura nos anos 70), mas a parte minorit\u00e1ria que se identificava com a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores mais pobres e buscava lutar junto a eles.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguiram. A alian\u00e7a entre os movimentos de estudantes e as greves \u201cselvagens\u201d de Osasco e Contagem n\u00e3o foi adiante. A brutal repress\u00e3o militar (tanto sobre estudantes como sobre oper\u00e1rios) teve um papel nisso, bem como alguns erros das organiza\u00e7\u00f5es clandestinas constru\u00eddas pelos jovens, mas o principal problema foi que n\u00e3o se consolidou um importante movimento dos trabalhadores mais pobres, em especial os negros e moradores de favelas e periferias.<\/p>\n<p>Tal como em 1968, o \u201cproblema\u201d hoje n\u00e3o \u00e9 a juventude nas ruas ter origem na classe m\u00e9dia, mas que essa juventude consiga se juntar \u00e0 vida e \u00e0 luta dos mais explorados e oprimidos, os trabalhadores, os camponeses, os moradores de favelas e periferias e os sem-teto, o povo negro e os ind\u00edgenas, um conjunto que, mais por comodidade que por defini\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, chamarei de \u201cproletariado\u201d. N\u00e3o \u00e9 um problema simples, mas determinadas condi\u00e7\u00f5es permitem-nos ter esperan\u00e7as que o desfecho ser\u00e1 melhor que em 68.<\/p>\n<p>Primeiro, algumas condi\u00e7\u00f5es \u201cobjetivas\u201d. Atualmente existe, tanto em n\u00fameros absolutos como proporcionalmente, muito mais estudantes universit\u00e1rios de origem prolet\u00e1ria que h\u00e1 45 anos atr\u00e1s. Eles constituem uma \u201cponte\u201d natural entre os dois mundos. E tamb\u00e9m existe hoje um verdadeiro movimento de base nas favelas e periferias (para n\u00e3o falar dos camponeses, quilombolas, ind\u00edgenas, etc), ainda com muitas defici\u00eancias e contradi\u00e7\u00f5es, \u00e9 certo, mas real.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, uma condi\u00e7\u00e3o \u201csubjetiva\u201d, quase um \u201csentimento\u201d. A juventude dos protestos, mesmo aquela que n\u00e3o \u00e9 da Baixada, de S\u00e3o Gon\u00e7alo, do sub\u00farbio e das favelas, tem hoje uma facilidade muito maior em conhecer e se articular com o proletariado. Falo por experi\u00eancia direta: conheci desde junho muitos jovens da Zona Sul ou de partes ricas da Zona Norte que em muito pouco tempo se aproximaram dos movimentos de favelas e estabeleceram la\u00e7os de confian\u00e7a e coopera\u00e7\u00e3o, somando-se a um n\u00famero expressivo que j\u00e1 tinha essa experi\u00eancia antes do levante.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, por mais que seja importante essa aproxima\u00e7\u00e3o, o decisivo para o futuro dos protestos est\u00e1 na capacidade dos movimentos prolet\u00e1rios expandirem-se na nova conjuntura. Essa avalia\u00e7\u00e3o pode parecer a da esquerda tradicional segundo a qual os futuro dos protestos depende da \u201cclasse trabalhadora assumir o protagonismo\u201d do movimento. Mas a diferen\u00e7a est\u00e1 no que se considera \u201cmovimento prolet\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>A esquerda eleitoral e mesmo a extrema-esquerda partid\u00e1ria quando fala em \u201cmovimento da classe trabalhadora\u201d est\u00e1 pensando essencialmente em partidos, sindicatos e centrais sindicais. Mesmo Jos\u00e9 Arbex Jr, por exemplo, que evoluiu para posi\u00e7\u00f5es mais radicais nos \u00faltimos anos, colocou n\u00e3o s\u00f3 nos partidos e sindicatos em geral, mas especificamente no PT e na CUT (!), o destino dos protestos e de todo o pa\u00eds: \u201cO momento decisivo ser\u00e1 a entrada em cena dos trabalhadores organizados em seus partidos e sindicatos. Apenas a a\u00e7\u00e3o organizada da classe oper\u00e1ria tem a for\u00e7a necess\u00e1ria e suficiente para levar at\u00e9 as \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias o movimento por conquistas sociais significativas [\u2026] Os dirigentes do PT e da CUT encontram-se agora numa encruzilhada definitiva: ou abra\u00e7am suas origens [\u2026] ou ter\u00e3o que enfrentar um formid\u00e1vel movimento de revolta que est\u00e1 apenas no seu in\u00edcio. A primeira alternativa conduzir\u00e1 o Brasil a uma situa\u00e7\u00e3o progressista [\u2026] a segunda estilha\u00e7ar\u00e1 o PT e a CUT e lan\u00e7ar\u00e1 o Pais no caos.\u201d (\u201cDilma: rompa com os patr\u00f5es!\u201d, em <em>Caros Amigos<\/em> edi\u00e7\u00e3o n. 196, junho\/2013).<\/p>\n<p>Tenho muita curiosidade em saber o que pensa Arbex hoje ap\u00f3s progn\u00f3sticos t\u00e3o apocal\u00edpticos, depois das \u201cdire\u00e7\u00f5es do PT e da CUT\u201d n\u00e3o terem feito nenhum movimento no sentido de \u201cabra\u00e7arem suas origens\u201d, muito pelo contr\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p>Partidos de esquerda e sindicatos (e alguns movimentos como o MST) tiveram sua oportunidade de \u201cmomento decisivo\u201d na \u201cparalisa\u00e7\u00e3o nacional\u201d do dia 11\/07, ainda com os protestos quentes, mas o resultado foi um fiasco quase total (aqui no Rio, ainda tivemos que assistir cenas vergonhosas de militantes do PCdoB agarrando <em>black blocs<\/em> e os entregando \u00e0 pol\u00edcia!). Nenhuma outra mobiliza\u00e7\u00e3o convocada e organizada pelas centrais sindicais conseguiu empolgar tanto como as chamadas \u201cespontane\u00edstas\u201d.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que o movimento sindical passou em brancas nuvens 2013. Como parte da multiplica\u00e7\u00e3o de lutas desde junho, o n\u00famero de greves e paralisa\u00e7\u00f5es teve um aumento expressivo, e em diversas categorias come\u00e7am a germinar movimentos que questionam a burocratiza\u00e7\u00e3o e acomoda\u00e7\u00e3o dos sindicatos. Os resultados maiores ainda est\u00e3o para se ver, mas um caso espec\u00edfico mostra a potencialidade da luta sindical dos trabalhadores, quando seus m\u00e9todos espec\u00edficos s\u00e3o combinados com as novas formas de luta surgidas ou aperfei\u00e7oadas no levante. Claro que estou falando da greve dos professores da rede p\u00fablica do Rio de Janeiro entre agosto e outubro.<\/p>\n<p>A greve foi deflagrada em assembl\u00e9ias nada massivas, contra a vontade da dire\u00e7\u00e3o do Sepe (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educa\u00e7\u00e3o), e parecia ser uma aventura de \u201canarquistas\u201d, mas logo tornou-se uma mobiliza\u00e7\u00e3o impressionante da categoria, impulsionada principalmente pela conjuntura geral. A greve tornou-se o estopim para a retomada dos protestos populares em n\u00edveis semelhantes aos de junho, mostrando que a situa\u00e7\u00e3o continua madura para novos levantes, desde que haja a combina\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel de circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Para a categoria, os resultados (econ\u00f4micos) foram decepcionantes, mas o aprendizado pol\u00edtico foi fundamental. Em pr\u00f3ximas greves, \u00e9 preciso levar em conta uma defici\u00eancia fatal dessa \u00faltima: o baixo envolvimento de alunos e pais com a greve, o que poderia ter feito toda a diferen\u00e7a, pois no setor de servi\u00e7os p\u00fablicos a press\u00e3o sobre o patr\u00e3o (o Estado) \u00e9 menos econ\u00f4mica (pois n\u00e3o existe aqui a possibilidade de \u201credu\u00e7\u00e3o dos lucros\u201d) que pol\u00edtica (perspectiva de quebra de legitimidade e perda de votos), e nisso os \u201cusu\u00e1rios\u201d dos servi\u00e7os t\u00eam papel fundamental. Esse foi um dos segredos da Comuna de Oaxaca no M\u00e9xico (2006), que come\u00e7ou com reivindica\u00e7\u00e3o de professores e tornou-se uma experi\u00eancia profunda de poder popular, cujas conseq\u00fc\u00eancias para a luta prolet\u00e1ria naquele pa\u00eds se fazem sentir at\u00e9 hoje. Os professores de Oaxaca e outras regi\u00f5es do M\u00e9xico t\u00eam um trabalho org\u00e2nico profundo com as comunidades ind\u00edgenas, os principais \u201cusu\u00e1rios\u201d de seus \u201cservi\u00e7os\u201d. Algo semelhante precisa ser constru\u00eddo entre os professores, as favelas e os bairros de periferia nas cidades brasileiras.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante prov\u00e1vel que a retomada de lutas sindicais se concentre nas categorias de servi\u00e7o p\u00fablico, e isso cria um potencial de envolvimento da popula\u00e7\u00e3o muito importante. Em \u201cA constru\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia\u2026\u201d j\u00e1 havia abordado em parte essa possibilidade:<\/p>\n<p><em>\u201c[\u2026]o setor que mais t\u00eam se destacado, em volume e radicaliza\u00e7\u00e3o, nas lutas sindicais t\u00eam sido o dos \u201cservi\u00e7os\u201d: educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, energia, comunica\u00e7\u00f5es, transportes, infraestrutura e administra\u00e7\u00e3o urbana em geral. Foram estes, por exemplo, que fizeram as grandes greves e manifesta\u00e7\u00f5es do final de 1995 na Fran\u00e7a, que marcou a retomada de grandes lutas sindicais na Europa. Isso n\u00e3o acontece por acaso, estes setores de \u201cservi\u00e7os\u201d s\u00e3o precisamente aqueles em que o capital mais investe atualmente e nos quais busca criar novos campos de acumula\u00e7\u00e3o (da\u00ed a press\u00e3o para a privatiza\u00e7\u00e3o daqueles que ainda s\u00e3o em grande medida servi\u00e7os p\u00fablicos) que compensem o congestionamento de capital nos setores industriais tradicionais. Por conseguinte, o proletariado destes setores n\u00e3o s\u00f3 cresce numericamente em compara\u00e7\u00e3o com o dos setores industriais, mas \u00e9 submetido a press\u00f5es de aumento das taxas de explora\u00e7\u00e3o significativamente maiores que a classe oper\u00e1ria tradicional.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O que faltou foi fazer a liga\u00e7\u00e3o com essa outra avalia\u00e7\u00e3o fundamental, que vou citar aqui embora seja um trecho longo, pois me economiza explicar o que entendo por \u201cmovimento prolet\u00e1rio\u201d atualmente:<\/p>\n<p><em>\u201cPor\u00e9m, o mais importante \u00e9 a cont\u00ednua e crescente movimenta\u00e7\u00e3o de classe dos setores mais empobrecidos e explorados: desempregados (subempregados, mal-empregados) em geral, habitantes das periferias, guetos e ruas, camponeses sem-terra, imigrantes e etnias oprimidas, etc. Temos defendido h\u00e1 algum tempo que esse \u00e9 o setor mais din\u00e2mico e de maior capacidade ofensiva do proletariado atualmente, e os \u00faltimos anos t\u00eam confirmado essa avalia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas da multiplica\u00e7\u00e3o quantitativa de motins, saques, ocupa\u00e7\u00f5es, bloqueios e outras formas de luta que aos poucos v\u00e3o se consolidando e se aperfei\u00e7oando e se tornando t\u00e3o caracter\u00edsticas desse setor de pobres como as greves se tornaram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe oper\u00e1ria tradicional. Trata-se que essas lutas v\u00e3o se tornando cada vez <strong>mais organizadas e planejadas, mais efetivas em atingir o inimigo de classe, e mais decisivas em momentos concentrados de lutas de classes:<\/strong> levantes e insurrei\u00e7\u00f5es. Desde os motins de Los Angeles em 1992 (ou antes, desde o caracazo venezuelano em 1989), t\u00eam se tornado mais freq\u00fcentes as ocasi\u00f5es em que a movimenta\u00e7\u00e3o de massas dos mais pobres determinou a dire\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a das correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e dos confrontos de classe: Chiapas em 1994, Alb\u00e2nia em 1997, Indon\u00e9sia em 1998, Equador em 2000, Palestina (nova Intifada) em 2000, Argentina em 2001, Venezuela (insurrei\u00e7\u00e3o que derrotou a tentativa de golpe) agora em 2002\u2026 Em alguns pa\u00edses latino-americanos, como Equador, Bol\u00edvia e principalmente a Argentina, bloqueios de estradas e outras formas de interromper a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias j\u00e1 se converteram numa forma regular de luta econ\u00f4mica dos prolet\u00e1rios mais pobres, com efic\u00e1cia crescente. O mesmo acontece com as ocupa\u00e7\u00f5es de terra (rurais) e terrenos em v\u00e1rias partes do mundo.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O levante brasileiro de 2013 comprova este teorema? \u00c0 primeira vista parece que n\u00e3o, mas \u00e9 fato que as pautas das favelas, periferias, quilombolas, ind\u00edgenas, sem-teto e juventude negra t\u00eam ocupado um papel cada vez mais central nas lutas desde junho, e marcaram o clima de tens\u00e3o social que precedeu o levante. Aqui no Rio, boa parte do que aconteceu a partir de junho nas ruas foi antecipado na luta em torno da Aldeia Maracan\u00e3 (ocupa\u00e7\u00e3o do antigo Museu do \u00cdndio). Em todo o Brasil, os conflitos envolvendo a resist\u00eancia ind\u00edgena e a demarca\u00e7\u00e3o de terras se agravaram progressivamente nos \u00faltimos anos, chegando a um ponto de enfrentamento armado em v\u00e1rios casos (guarani-kaiow\u00e1, terena, povos do Xingu contra Belo Monte, etc). O mesmo em rela\u00e7\u00e3o aos quilombolas, praticamente no pa\u00eds todo. Em S\u00e3o Paulo, o maior conflito antes da explos\u00e3o de 2013 foi a batalha da Ocupa\u00e7\u00e3o Pinheirinho no in\u00edcio de 2012, que teve repercuss\u00e3o nacional, e desde agosto desse ano, pelo menos, temos visto o maior ascenso dos \u00faltimos anos de ocupa\u00e7\u00f5es de sem-teto e lutas contra despejos no estado. Os exemplos s\u00e3o muitos e se multiplicam\u2026<\/p>\n<p>Mas \u00e9 na exacerba\u00e7\u00e3o da guerra brutal entre o proletariado e o bra\u00e7o armado do Estado racista e capitalista que toda a potencialidade e o drama da situa\u00e7\u00e3o aberta pelos levantes de junho se revelam.<\/p>\n<p><strong>\u201cA pol\u00edcia que reprime na avenida \u00e9 a mesma que mata na favela\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Essa frase, de um dos <a href=\"http:\/\/redecontraviolencia.org\" target=\"_blank\">novos movimentos<\/a> em que milito , foi posta numa faixa que estreou no protesto de 20\/06 na Pres. Vargas. Reapareceu no dia 25\/06 na Mar\u00e9, no protesto dos moradores contra a chacina da noite anterior. As fotos com ela viralizaram rapidamente nas redes sociais e a frase virou <em>meme<\/em> na Internet. Isso s\u00f3 pode significar que tais palavras exprimiram uma identifica\u00e7\u00e3o s\u00fabita entre as pessoas nas ruas tomadas pela insurg\u00eancia, e as pessoas submetidas ao Estado de s\u00edtio permanente nas favelas e periferias.<\/p>\n<p>Dificilmente os protestos de junho teriam a dimens\u00e3o que tomaram se o Estado, atrav\u00e9s de sua face mais assassina, a Pol\u00edcia Militar, n\u00e3o decidisse extinguir no nascedouro a rebeldia impertinente dos manifestantes. Foi o massacre e as pris\u00f5es em massa (mais de 200 manifestantes) no protesto de 13\/06 em S\u00e3o Paulo que geraram indigna\u00e7\u00e3o nacional e acenderam o rastilho para a explos\u00e3o nas ruas nas semanas seguintes.<\/p>\n<p>A PM utilizou nas ruas apenas um limitado subconjunto do repert\u00f3rio de atrocidades que aplica regularmente nas quebradas e favelas para \u201cdisciplinar\u201d o povo descendente de africanos e ind\u00edgenas, e sustentar a ordem perversa dessa sociedade ainda em grande medida escravocrata e colonial. Mas foi o suficiente para despertar para a realidade aqueles ativistas, ou mesmo militantes de longa data que, mergulhados at\u00e9 ent\u00e3o numa rotina de vida \u201cpac\u00edfica\u201d, ou em movimentos institucionalizados e bem comportados, nunca haviam contemplado a face medonha do <em>apartheid<\/em> brasileiro.<\/p>\n<p>Houve, \u00e9 claro, e ainda h\u00e1, uma tend\u00eancia de certos setores (principalmente jur\u00eddicos e acad\u00eamicos) a restringir a den\u00fancia do Estado da \u201cditadura democr\u00e1tica\u201d \u00e0s viola\u00e7\u00f5es cometidas contra as manifesta\u00e7\u00f5es. Mas aos poucos a compreens\u00e3o de que a brutalidade dirigida aos protestos \u00e9 apenas um caso particular e limitado de uma realidade permanente de exce\u00e7\u00e3o e genoc\u00eddio vai se impondo. Aqui no Rio, o caminho para essa compreens\u00e3o foi aberto traumaticamente, durante o levante, pela chacina da Mar\u00e9, e depois, pelo seq\u00fcestro, tortura e assassinato de Amarildo de Souza pela UPP da Rocinha.<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia do posicionamento de acad\u00eamicos como Giuseppe Cocco, professor da UFRJ com inequ\u00edvoca forma\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia de vida europ\u00e9ia, que conseguem por em primeiro plano a caracter\u00edstica fundamentalmente racista e colonial da sociedade brasileira, como na <a>entrevista<\/a> de 07\/12 ao Instituto Humanitas Unisinos:<\/p>\n<p><em>\u201cO movimento [dos levantes de junho e outubro] n\u00e3o apenas nos diz que a separa\u00e7\u00e3o da fonte (o povo) vis-\u00e0-vis do resultado (os representantes) \u00e9 imoral, mas expl\u00edcita, e torna vis\u00edvel que essa dimens\u00e3o imoral do poder est\u00e1 baseada na viol\u00eancia de suas pol\u00edcias. Ou seja, o movimento teve a capacidade de mostrar para o Brasil e para o mundo as dimens\u00f5es perversas do monop\u00f3lio estatal do uso da for\u00e7a no Brasil; um regime de terror de Estado que, por meio do regime discursivo sustentando pela m\u00eddia da elite neoescravagista, \u00e9 tratado como se fosse \u2018externo\u2019 e independente dos governos [\u2026] Seria ir\u00f4nico se n\u00e3o fosse o c\u00famulo do cinismo escravocrata. \u00c9 que a forma esp\u00faria de agir do Estado, ou conluio generalizado entre for\u00e7as de pol\u00edcias e crime organizado, no meio da histeria repressiva contra o tr\u00e1fico de drogas, funciona como principal mecanismo de legitima\u00e7\u00e3o da guerra contra os pobres e contra suas mobiliza\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Como sempre fez, desde junho, o poder multiplica os boatos sobre participa\u00e7\u00e3o do narcotr\u00e1fico nas mobiliza\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Na senzala \u2014 ou seja, nas favelas, sub\u00farbios e periferias \u2014 o terror anda a pleno vapor, quer a pol\u00edcia seja do PSDB, do PT, do PSB ou do PMDB. \u00c9 um terror estatal com vieses classistas e, sobretudo, racistas [\u2026] O que o movimento fez e faz n\u00e3o \u00e9 praticar a viol\u00eancia, mas tornar expl\u00edcita e vis\u00edvel a viol\u00eancia do poder e seus sistemas de (in)justi\u00e7a, como do caso Amarildo [\u2026] A mesma coisa aconteceu com os mais de 10 moradores assassinados na favela da Mar\u00e9 em junho, durante o movimento, pela \u201cTropa de Elite\u201d da PM do Rio e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual sequer existe um procedimento disciplinar. O movimento mostrou que os moradores da senzala n\u00e3o t\u00eam cidadania nem direito de lutar. A chacina da Mar\u00e9 foi um recado claro, genuinamente neoescravagista, aos pobres: voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam direito de lutar e se lutarem ser\u00e3o mortos. Essa \u00e9 a democracia que vivemos: n\u00e3o nos grot\u00f5es do Brasil remoto, mas na metr\u00f3pole ol\u00edmpica, o Rio de Janeiro.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Faltou acrescentar, ou destacar, que o \u201cmovimento\u201d que revelou tudo isso n\u00e3o foi, em primeiro lugar, os protestos no centro da cidade, mas os protestos dos pr\u00f3prios favelados: dos moradores da Mar\u00e9 que desafiaram a PM que cercava a Nova Holanda e o Parque Uni\u00e3o em 25\/06, e que for\u00e7aram a retirada do caveir\u00e3o; e a dos parentes, vizinhos e amigos de Amarildo, que fecharam mais de uma vez o t\u00fanel Zuzu Angel em S\u00e3o Conrado, impedindo que o caso se tornasse mais um perdido e esquecido nas estat\u00edsticas policiais.<\/p>\n<p>A luta aberta e inadi\u00e1vel contra esse terror de Estado tem que estar no centro das mobiliza\u00e7\u00f5es doravante, para que toda a energia desatada pelos levantes n\u00e3o termine como uma distra\u00e7\u00e3o passageira na longa hist\u00f3ria de sil\u00eancio e segrega\u00e7\u00e3o do Brasil. Alguns avan\u00e7os neste sentido j\u00e1 aconteceram, como a difus\u00e3o da campanha pela desmilitariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias, e a importante mobiliza\u00e7\u00e3o contra o genoc\u00eddio do povo negro em Salvador, mas o principal \u00e9 estender as estruturas e redes criadas contra a repress\u00e3o nos protestos, para a prote\u00e7\u00e3o dos habitantes das favelas e periferias. Na Rede de Comunidades e Movimentos contra a Viol\u00eancia, h\u00e1 muito estabelecemos que um trabalho org\u00e2nico de autodefesa jur\u00eddica calcada em direitos humanos, e de den\u00fancia qualificada utilizando as t\u00e9cnicas de comunica\u00e7\u00e3o e m\u00eddia alternativa, s\u00e3o essenciais para apoiar a resist\u00eancia cotidiana dos povos contra a viol\u00eancia estatal.<\/p>\n<p>No levante de junho, em pouco tempo se constitu\u00edram redes volunt\u00e1rias de advogados e juristas (aqui no Rio atrav\u00e9s de grupos como o <em>Habeas Corpus<\/em> e institui\u00e7\u00f5es como a OAB e o IDDH) por um lado, e redes e grupos de midiativistas e comunicadores (os chamados \u201cninjas\u201d), que tiveram papel fundamental na continuidade dos protestos. Isso mostra que h\u00e1 uma profunda analogia entre a resist\u00eancia ao terror de Estado na favela e no \u201casfalto\u201d. Mas \u00e9 preciso descobrir como levar o ativismo jur\u00eddico e o midiativismo do \u201casfalto\u201d para o terreno estranho e sombrio das quebradas ocupadas ou sitiadas pela pol\u00edcia mais brutal do planeta.<\/p>\n<p><strong>2014?<\/strong><\/p>\n<p>Amanh\u00e3 j\u00e1 ser\u00e1 dia de voltar \u00e0s ruas. Em \u00e9pocas insurreicionais, os momentos da reflex\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam como ser claramente separados. Mas temos que aperfei\u00e7oar tanto a a\u00e7\u00e3o como a reflex\u00e3o, porque os desafios das lutas em 2014 ser\u00e3o significativamente maiores que os de 2013. As oligarquias j\u00e1 se movem para saber como dosar repress\u00e3o e engano neste ano que juntar\u00e1 Copa do Mundo, elei\u00e7\u00f5es gerais e sabe-se l\u00e1 o que mais. Temos que nos mover rapidamente para tirar as li\u00e7\u00f5es da quantidade de fatos descomunais que vivemos em 2013.<\/p>\n<p>Algo importante devemos reconhecer desde j\u00e1: apesar das coisas grandiosas e novas que vivemos, ainda foram poucas e ef\u00eameras as experi\u00eancias de constru\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de poder popular, como assembl\u00e9ias populares e comiss\u00f5es de luta por local de trabalho ou moradia. Neste aspecto, o levante brasileiro ainda est\u00e1 bastante aqu\u00e9m de experi\u00eancias semelhantes em pa\u00edses como M\u00e9xico, Argentina ou Bol\u00edvia, por exemplo. Descobrir como avan\u00e7ar nesse campo \u00e9 um dos nossos principais desafios.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 um desafio somente para n\u00f3s do Brasil. Se at\u00e9 junho t\u00ednhamos todas as raz\u00f5es para desejar que nenhum de nossos amigos e aliados do exterior viesse para c\u00e1 engrossar o caldo da festa das elites na Copa, hoje precisamos e muito de sua presen\u00e7a e de sua ajuda. Em 2013 o Brasil, depois de longa espera, entrou finalmente no circuito dos levantes populares mundiais. Em 2014, h\u00e1 toda probabilidade que o pa\u00eds seja a escala mais importante desse circuito rebelde.<\/p>\n<p>Maur\u00edcio Campos,\u00a0<span style=\"line-height: 1.5em\">Dezembro de 2013<\/span><\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.redecontraviolencia.org\/Artigos\/927.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.redecontraviolencia.org\/Artigos\/927.html<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maur\u00edcio Campos &#8211; Militante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Viol\u00eancia \u201cOs grandes acontecimentos revolucion\u00e1rios possuem a particularidade de que, por mais que tenham sido antecipados e esperados, n\u00e3o obstante t\u00e3o logo se produzem, apresentam-se diante n\u00f3s, em sua complica\u00e7\u00e3o e sua configura\u00e7\u00e3o concreta, como uma esfinge, como um problema que \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7757,"featured_media":780,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,6],"tags":[12,13,40,68,96,103,115,147,160,177],"class_list":["post-779","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-memoria-das-lutas","category-para-seguir-lutando","tag-12","tag-13","tag-brasil","tag-eleicoes-2014","tag-luta-de-classes","tag-manifestacoes","tag-mobilizacoes","tag-racismo","tag-revolta","tag-violencia-policial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7757"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=779"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":824,"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779\/revisions\/824"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/780"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/daslutas.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}